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Estados Unidos avaliam sanções CAATSA à Argélia por eventual compra de caças furtivos Su-57E à Rússia

Modelo de avião militar entre bandeiras da Argélia e dos Estados Unidos sobre mesa durante reunião.

Durante uma audição no Comité de Relações Externas do Senado, na qual Robert Palladino interveio na qualidade de responsável pelo gabinete de Assuntos do Próximo Oriente, os Estados Unidos, através do Departamento de Estado, afirmaram estar a analisar a imposição de sanções à Argélia caso o país avance com a aquisição de novos caças furtivos Su-57E de origem russa. Segundo o responsável, um entendimento desta natureza é considerado por Washington como “problemático”, pelas suas múltiplas implicações, abrindo a porta à aplicação da Lei para Contrariar os Adversários da América através de Sanções (CAATSA) contra o Estado africano.

Questionado por senadores sobre quais as medidas em curso para impedir que Argel prossiga os seus planos de compra do Su-57, Palladino respondeu: “Trabalhamos de perto com o Governo argelino em matérias em que temos pontos de convergência. Mas, naturalmente, discordamos em muitos dossiês, e o acordo de armamento é um exemplo do que os Estados Unidos consideram problemático. Recorremos aos instrumentos diplomáticos de que dispomos, muitas vezes de forma reservada, para proteger os nossos interesses e travar o que consideramos inaceitável.”

Força Aérea Argelina e o salto de capacidade com o Su-57E

Há indicações de que a Argélia procura constituir uma frota de Su-57E na ordem de cerca de uma dúzia de aeronaves, o que significaria um avanço expressivo para uma força aérea que, actualmente, assenta sobretudo em Su-30MKA, MiG-29S/M/M2 e Su-24MK2. De acordo com publicações russas, estes novos aparelhos destinam-se a substituir os MiG-25, retirados de serviço em 2022.

Em paralelo, dirigentes de topo da United Aircraft Corporation (UAC) referiram, em Novembro do ano passado, que a entrega dos dois primeiros caças já teria ocorrido e que estes teriam, inclusivamente, realizado os seus primeiros voos como demonstração de capacidades.

Melhorias em desenvolvimento no Su-57: cockpit e vectorização de empuxo

A acompanhar a possível exportação do Su-57E, importa notar que Moscovo continua a trabalhar em novos aperfeiçoamentos para a aeronave furtiva. Entre as mudanças em preparação, destaca-se um novo ecrã panorâmico no cockpit, desenvolvido a pedido de pilotos que participaram na guerra na Ucrânia, os quais solicitaram a substituição dos dois ecrãs originais, mais pequenos.

Adicionalmente, maquetas recentes passaram a exibir novos bocais bidimensionais de vectorização de empuxo, cuja vantagem principal seria o aumento da manobrabilidade, ainda que com a contrapartida de uma ligeira redução de velocidade.

CAATSA e o impacto: o precedente da Turquia

Para além do plano técnico, e regressando ao risco de sanções dos Estados Unidos sobre a Argélia, vale a pena enquadrar que este não seria o primeiro caso recente em que a CAATSA desempenha um papel central - e a Turquia constitui um exemplo particularmente elucidativo. Em concreto, está em causa a sua exclusão do programa F-35, no qual Ancara participou com o objectivo de adquirir a plataforma de quinta geração para modernizar a sua força aérea, composta sobretudo por caças F-16 e, cada vez mais, complementada pela compra de aeronaves Eurofighter.

A razão dessa exclusão prende-se com as reiteradas preocupações de Washington relativamente à compra turca dos sistemas de defesa antiaérea S-400 de fabrico russo. O receio principal era o de que esses sistemas pudessem ser usados para recolher dados sobre a forma de detectar e abater F-35 norte-americanos, comprometendo as suas capacidades de furtividade. Isto aconteceu apesar de a Turquia ter investido cerca de 1,4 mil milhões de dólares (US$) no processo de aquisição de 100 F-35, verba que não foi reembolsada pelo Governo dos EUA após a aplicação de sanções.

Actualmente, os dois países continuam a discutir diferentes vias para desbloquear o impasse, incluindo a hipótese de transferência/entrega dos sistemas S-400, de modo a atacar o problema na sua origem. Em declarações feitas em Dezembro, o embaixador dos EUA na Turquia, Tom Barrack, afirmou: “Penso que estas questões serão resolvidas nos próximos quatro a seis meses.”

O que pode significar a CAATSA para Argel: efeitos práticos e margem diplomática

A eventual aplicação da CAATSA tende a ser relevante não apenas como sinal político, mas também pelas consequências operacionais: pode afectar acesso a financiamento, relações com fornecedores, e a capacidade de integrar determinados sistemas e componentes com origem ou tecnologia norte-americana. Na prática, mesmo quando não bloqueia directamente uma compra específica, pode introduzir custos, atrasos e incerteza nos programas de modernização.

Ao mesmo tempo, a margem de manobra de Argel pode passar por intensificar canais diplomáticos e procurar reduzir riscos de escalada, preservando áreas onde existam interesses comuns com Washington. A forma como estas conversações evoluírem será determinante para perceber se o dossier Su-57E se transforma num caso de sanções, ou num ponto de negociação mais amplo.

Modernização da Força Aérea Argelina: Su-35S e Su-34 em foco

Com a possibilidade de sanções ainda em aberto, importa recordar que a modernização da Força Aérea Argelina não se limita ao Su-57. O país aguarda também a chegada de dois outros tipos de aeronaves: os caças Su-35S e os caças-bombardeiros Su-34 - que, segundo relatos anteriores e documentos divulgados após fugas atribuídas a pirataria informática, estariam em fase de entrega à Argélia.

No caso dos Su-35S, observadores locais reportaram ter visto e fotografado aeronaves a realizar primeiros voos já com esquemas de pintura e insígnias da Força Aérea Argelina. Pelo menos dois exemplares parecem ter sido entregues, embora não seja claro quantos se encontram efectivamente em território argelino nem qual será, no final, a dimensão da frota; também não existe confirmação oficial do ramo sobre a chegada destas aeronaves. Já em Março de 2025, um conjunto de imagens de satélite da Maxar Technologies mostrava um primeiro exemplar no Aeroporto de Oum El Bouaghi, alimentando as suspeitas iniciais de que as entregas tinham começado.

Quanto aos Su-34, foram igualmente registadas fugas de informação relativas a pedidos de pacotes de guerra electrónica para equipar cerca de 14 aeronaves, o que oferece uma pista sobre a dimensão da frota que Argel pretende formar. Além disso, já circularam imagens do primeiro aparelho a efectuar voos sobre a cidade de Zhukovsky, na Rússia, chamando a atenção pela camuflagem desértica adequada ao ambiente geográfico onde deverá operar e indicando um estado de produção avançado.

Implicações regionais: capacidade aérea e equilíbrio no Magrebe

A entrada em serviço de plataformas como o Su-57E, o Su-35S e o Su-34 pode alterar de forma sensível o perfil de capacidade da Força Aérea Argelina, tanto em termos de superioridade aérea como de ataque e penetração. Independentemente de sanções, a combinação de novas aeronaves, treino, manutenção e cadeias logísticas será determinante para traduzir aquisições em disponibilidade real e sustentada.

Num contexto regional marcado por dinâmicas de segurança no Magrebe e por desafios no flanco sul do Mediterrâneo, a trajectória de modernização argelina tende a ser acompanhada com atenção por actores externos e vizinhos, sobretudo pela forma como pode influenciar o equilíbrio de dissuasão e a postura estratégica do país.

Imagens utilizadas para fins ilustrativos.

Sugestão de leitura: Com a chegada do submarino da classe Kilo IIKrasnodar”, a Rússia continua a reforçar os laços de cooperação militar com a Argélia.

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