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Ninguém quer mais uma sala de estar e jantar; os lares franceses optam agora por um novo conceito mais social.

Grupo de amigos a conversar e beber vinho num espaço acolhedor com janelas grandes e luz natural.

Numa noite de sábado, num pequeno apartamento em Lyon, quatro amigos apertam-se à volta de uma mesa de centro. Os pratos vão equilibrados nos joelhos, os copos disputam espaço com velas perfumadas e o comando da televisão. A TV está sem som; da ponta do sofá ainda se vê metade da cozinha; e há sempre alguém que desaparece “só um segundo” para mexer o tacho no fogão. A famosa sala de estar e jantar, pensada para ser “aberta e acolhedora”, acaba por se comportar como um corredor: um lugar de passagem, não um sítio onde se está, de facto, em conjunto.

A conversa perde ritmo sempre que alguém tem de se levantar.

E, em cada vez mais casas francesas, cresce o cansaço com este meio-termo pouco prático. Sem alarido, uma alternativa está a ganhar terreno.

A lenta morte da sala de estar e jantar

Em várias cidades francesas, agentes imobiliários dizem ouvir a mesma frase, repetida com pequenas variações: “Se der, preferimos não ter sala de estar e jantar.” As pessoas procuram outra coisa - algo que não pareça tirado de um catálogo de 2005. A mesa grande que raramente se usa durante a semana, o sofá encostado à parede, a televisão no papel de altar doméstico: para muitos, isto já não corresponde à vida real.

O espaço que foi desenhado para “servir para tudo” acaba, demasiadas vezes, por não servir particularmente bem para nada. A circulação manda, a convivência adapta-se.

Em Bordéus, um casal jovem, Elise e Romain, comprou há pouco tempo um apartamento de 70 m². Na planta, lá estava o rótulo clássico: “Sala / Sala de jantar 26 m²”. Eles riscaram-no a lápis e disseram ao arquitecto: “Não queremos isto.” No painel de inspiração, a divisão passou a chamar-se oficialmente peça de vida partilhada - e cada zona ganhou um propósito claro.

A antiga área de refeições junto à parede transformou-se numa mesa alta e comprida, encostada à ilha da cozinha: metade balcão, metade secretária, metade zona de trabalhos de casa para a filha. Já a parte “estar” deixou de olhar para a televisão e passou a virar-se para uma estante e para as plantas.

O que está a substituir a sala de estar e jantar não é um móvel novo nem uma moda de montra. É uma forma diferente de viver a casa em conjunto. Muitas famílias francesas procuram espaços flexíveis e sociais, onde seja natural cozinhar, trabalhar, brincar e conversar, sem ficarem presos a uma divisão rígida entre “zona do sofá” e “zona de comer”.

Com casas mais pequenas, teletrabalho mais frequente e refeições menos cerimoniosas, o modelo da mesa usada duas vezes por ano e do canto “sagrado” da televisão já não encaixa no dia a dia. Em vez de se adaptarem à divisão, querem que a divisão se adapte a eles.

A ascensão da peça de vida partilhada (e do espaço de convivência)

A tendência é nítida: um grande espaço partilhado, organizado por zonas - não por funções oficiais gravadas na planta. É como ter um T0 sociável dentro de uma casa maior. A cozinha abre-se, a mesa muda de lugar, o sofá roda, e surgem painéis deslizantes quando é preciso criar privacidade.

Um esquema típico: cozinha acolhedora com ilha central, uma mesa generosa ao centro usada para quase tudo, e um canto mais macio e ligeiramente mais íntimo para ler ou conversar. A televisão deixa de mandar. Passa a ser apenas mais um elemento no conjunto.

Profissionais de decoração relatam cada vez mais pedidos por “espaço de vida convivial” em vez de “sala / sala de jantar”. Uma decoradora de Paris contou-me o caso de uma família de Saint-Étienne com três filhos: derrubaram a parede entre a cozinha e a zona de estar e fizeram algo que, para muitos, ainda soa radical - eliminaram o conjunto fixo de sala de jantar.

No lugar dele, instalaram uma mesa grande, extensível, com rodas. Durante a semana, vive junto ao vão envidraçado como estação de trabalhos de casa e de portáteis. À sexta-feira à noite, desliza para perto da cozinha, ganha toalha e jogos de tabuleiro. Ao domingo, recolhe-se e liberta uma área ampla para as crianças construírem cidades de Lego no chão.

A lógica é simples: as pessoas querem divisões sociáveis, não peças de museu. Quando existem várias microzonas, cada um consegue fazer o seu - sem se isolar noutro quarto. Os pais preparam o jantar enquanto os adolescentes estudam na mesma mesa. Os amigos conversam à volta da ilha enquanto alguém termina uma apresentação no portátil.

Também há uma mudança de mentalidade: sai a lógica da “exibição” (mesa bonita, cadeiras a condizer, aparador imponente) e entra a lógica do “uso”. Os objectos têm de fazer mais do que uma coisa. Uma mesa, dois bancos corridos, alguns bancos altos e, talvez, uma consola dobrável: chega para receber dez pessoas num sábado e, ainda assim, deixar a casa leve e respirável na segunda-feira.

Há ainda um ponto que muitas casas descobrem tarde: numa peça de vida partilhada, o conforto não é só visual - é também acústico. Tapetes, cortinas mais densas e até uma estante bem colocada reduzem eco e ajudam a conversa a fluir mesmo quando alguém está a cozinhar ou a lavar loiça.

Outro aspecto que costuma transformar o dia a dia é a arrumação “invisível”. Em vez de móveis apenas decorativos, funcionam melhor soluções com capacidade real: bancos com arrumação, módulos fechados até ao tecto e cestos para esconder rapidamente brinquedos, cabos e papelada. Uma divisão flexível só é flexível se conseguir mudar de cenário sem esforço.

Como transformar a sua sala de estar e jantar num verdadeiro centro social (peça de vida partilhada)

O primeiro passo é duro, mas libertador: deixar de organizar a divisão em torno da televisão ou da grande mesa “de ocasiões”. Comece por uma pergunta mais honesta: “Onde é que, na prática, passamos tempo juntos?” E construa a partir daí.

Muitas vezes, o coração da casa está num canto da cozinha ou num ponto com boa luz natural perto da janela. Coloque aí a mesa principal. Deixe que seja o palco: refeições, trabalhos manuais, portáteis, conversas que se prolongam noite dentro. Depois, organize o resto como satélites em torno desse centro.

É comum as pessoas bloquearem porque acham que precisam de mais metros quadrados para mudar alguma coisa. A armadilha clássica é manter uma mesa enorme “para o caso de sermos dez no Natal” e, ao mesmo tempo, queixar-se de que não há espaço para brincar com as crianças ou estender um tapete de ioga. Sendo realistas: quase ninguém vive isso todos os dias.

A estratégia mais inteligente passa por escolher mobiliário transformável: mesa extensível, cadeiras empilháveis, um banco que entra por baixo da mesa, mesas de apoio encaixáveis. Ganha-se ar, circulação e liberdade - e deixa de parecer que se vive numa sala de banquetes permanente que nunca chega a acontecer.

“Quando tirámos a sala de jantar formal, as nossas noites mudaram”, conta Marion, 39 anos, de Lille. “Falamos mais. As pessoas ficam à volta da ilha, os miúdos desenham ao nosso lado, e o sofá passou a ser só uma opção - não o único destino.”

  • Dê prioridade a uma mesa central e generosa em vez de várias pequenas.
  • Inclua pelo menos uma peça com rodas para reconfigurar a divisão em segundos.
  • Crie iluminação por zonas: candeeiro suspenso sobre a mesa, candeeiro de pé junto ao sofá, luz mais quente perto da cozinha.
  • Separe áreas sem paredes com tapetes ou cores de parede diferentes.
  • Reserve um canto sem ecrãs: apenas livros, jogos e almofadas.

Uma nova forma de viver a casa em conjunto

O desaparecimento da sala de estar e jantar é menos uma tendência decorativa e mais uma mudança social. A casa já não é apenas o lugar onde se vê televisão e se fazem três refeições. É espaço de trabalho, sala de brincar, refúgio - e, ao fim de semana, por vezes, quase um pequeno restaurante para amigos. A divisão que resulta é a que acompanha estes papéis sem ficar presa a uma única postura.

Todos já passámos por aquele momento em que percebemos que a divisão “mais bonita” é, paradoxalmente, a que menos usamos.

Ao adoptar uma peça de vida mais flexível e partilhada, muitas famílias francesas estão a mudar as regras sem declarar guerra a ninguém. O “sofá perfeito” pesa menos do que a facilidade de puxar mais uma cadeira. O prestígio de uma mesa enorme conta menos do que a quantidade de conversas reais à volta dela. Os melhores espaços são ligeiramente imperfeitos, um pouco caóticos, mas profundamente vividos.

A verdade simples é esta: uma boa divisão não impressiona os convidados - relaxa-os. E talvez seja por isso que a antiga sala de estar e jantar, com cadeiras rígidas e móvel-vitrine de exibição, está a desaparecer. No lugar, entra algo mais suave, mais vivo e mais humano.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
De “sala de estar e jantar” para espaço partilhado Passagem de zonas fixas e formais para áreas flexíveis e usadas no dia a dia Dá ideias para repensar a divisão principal sem mudar de casa
Mobiliário que se adapta Mesas extensíveis, bancos, elementos móveis, zonamento pela luz Ajuda a receber mais pessoas sem complicar a rotina
Centro social da casa Cozinha, mesa e canto confortável a cooperarem, não a competirem Cria um ambiente mais quente e descontraído para família e amigos

Perguntas frequentes

  • A televisão deixou mesmo de ser central nas salas francesas?
    Muitas casas continuam a ter televisão, mas é cada vez mais comum colocá-la numa parede lateral, num canto mais discreto ou até num quarto, para que o espaço principal privilegie conversa e actividades partilhadas.
  • Como organizar grandes jantares sem uma sala de jantar formal?
    Use uma mesa extensível, mesas dobráveis ou uma combinação de bancos e cadeiras, guardando os lugares extra num quarto ou no corredor durante o resto do tempo.
  • E se o meu espaço for muito pequeno, como um estúdio?
    Aposte numa mesa central forte, cadeiras leves e um sofá-cama compacto; depois, use tapetes e iluminação para criar diferentes “momentos” dentro da mesma divisão.
  • Esta solução funciona com crianças?
    Funciona muito bem: as crianças podem fazer trabalhos de casa na mesma mesa onde os adultos cozinham ou conversam, e é fácil libertar rapidamente espaço no chão para brincar.
  • Preciso de um designer de interiores para mudar a disposição?
    Não. Comece por mover apenas uma peça grande (mesa ou sofá), teste a nova organização durante uma semana e só depois decida se vale a pena investir em mobiliário novo.

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