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Ex-embaixador dos EUA na Dinamarca diz que não há qualquer ameaça russa ou chinesa na Gronelândia.

Duas pessoas junto ao mar a jogar xadrez num tabuleiro rústico, com casas coloridas e bandeira da Noruega ao fundo.

Fora do pequeno terminal, as bandeiras estalavam ao vento: o círculo vermelho e branco da Gronelândia, a cruz da Dinamarca e, junto ao parque de estacionamento, uma discreta bandeira dos EUA. Um grupo de pescadores, de casacos grossos, fumava em silêncio, quase sem olhar para os funcionários de fato que saíam para o frio. Nada ali parecia o palco avançado de uma “nova Guerra Fria”. Ainda assim, basta percorrer as manchetes em Washington ou em Bruxelas para a Gronelândia surgir como um tabuleiro de xadrez cheio de submarinos russos e investidores chineses. Entre as portas do aeroporto e o asfalto gelado do parque, a distância entre esses dois mundos é quase absurda - e é precisamente essa fratura que um antigo embaixador norte-americano na Dinamarca decidiu expor.

Gronelândia: o “tabuleiro de xadrez do Árctico” que afinal não é

Durante anos, a Gronelândia foi tratada como um mapa colorido nos noticiários por cabo: muito espaço, poucos rostos, e uma narrativa pronta a usar - Rússia e China estariam prestes a “tomar conta” da ilha. É neste cenário que surge uma voz inesperada a travar a máquina do medo.

Rufus Gifford, que foi embaixador dos EUA na Dinamarca no tempo de Barack Obama, passou a ser um incómodo para a história do alegado “assalto” russo e chinês à Gronelândia. Em comentários recentes que circularam discretamente em meios diplomáticos, foi taxativo: não há qualquer verdade na ideia de que Moscovo ou Pequim estejam à beira de capturar a ilha. Nem de forma subtil, nem por vias ocultas - de todo.

O contraste fica mais nítido quando recuamos a 2019. Nesse ano, Donald Trump lançou a ideia de comprar a Gronelândia, como se se tratasse de um imóvel à beira-mar. A imprensa internacional entrou em ebulição e multiplicaram-se análises a avisar que, se os EUA não “agissem depressa”, a Rússia e a China avançariam. Uns apontavam para uma tentativa chinesa (de curta duração) de participar na expansão de aeroportos; outros falavam de submarinos russos sob o gelo do Árctico. No ecrã, tudo soava a thriller: potências a correr para um prémio congelado.

No entanto, em Nuuk, o debate quotidiano seguia por outros carris: quotas de pesca, falta de habitação, serviços públicos - não “infiltrações” chinesas. Grande parte do suposto enredo existia sobretudo em diapositivos de centros de estudos ocidentais, não nas conversas de rua.

A intervenção de Gifford entra de frente nesse desfasamento. Ele não nega que Rússia e China tenham interesses no Árctico - têm, desde rotas marítimas a minerais críticos, incluindo terras raras. O ponto é outro: a Gronelândia não vai trocar de bandeira de um dia para o outro. E, ao insistirem em alarmes constantes, muitos analistas acabam por distorcer a realidade e por abafar aquilo que os gronelandeses dizem querer: mais margem de decisão sobre a economia, mais capacidade de gerir relações externas e, acima de tudo, respeito por parte dos grandes actores. O medo vende melhor do que a nuance - e o Árctico tornou-se um ecrã perfeito para fantasias de pior caso.

Em termos simples: é mais fácil “vender” uma história de bases secretas do que explicar a política local lenta, complexa e por vezes desorganizada.

Por trás da narrativa da “ameaça”: o que está realmente em jogo

Quando se retira o dramatismo, sobra uma realidade mais discreta: Washington tenta marcar presença na Gronelândia de um modo que não seja apenas “manter os outros de fora”. É aqui que as palavras de Gifford doem mais, porque funcionam como um recado directo: deixem de tratar a Gronelândia como uma casa assombrada e passem a tratá-la como um parceiro.

Esse caminho começa por algo quase antiquado na diplomacia: aparecer, conversar cara a cara, em salas pequenas, sem câmaras e sem frases feitas.

A experiência da Gronelândia com países grandes pode lembrar aquela relação em que alguém só liga quando tem medo de perder. O interesse sobe quando há rumores de projectos mineiros chineses ou de quebra-gelos russos, e volta a descer quando os alarmes se calam. Vários responsáveis locais têm sido claros: não querem ser figurantes num guião de segurança escrito por terceiros.

Quando a ideia de “comprar a Gronelândia” se tornou pública, muitos habitantes não se sentiram cortejados - sentiram-se reduzidos a objecto. Esse episódio transformou um país inteiro numa reviravolta mediática sem se perguntar, primeiro, como as pessoas vivem e o que pretendem.

O raciocínio de Gifford é linear: se os EUA falarem da Gronelândia apenas como uma peça contra a Rússia e a China, reforçam a suspeita de que não estão a ver os gronelandeses. E é aqui que a conversa das “ameaças” pode sair pela culatra: empurra líderes locais a diversificar opções, não por entusiasmo com Pequim ou Moscovo, mas por cansaço de serem tratados como peões. Entre linhas, a mensagem é que cooperação calma e previsível vale mais do que competição encenada.

Sejamos francos: ninguém lê uma doutrina de segurança com dezenas de páginas quando está à procura de um caminho para melhores escolas, energia mais limpa e empregos estáveis.

Gronelândia, EUA, Rússia e China: como muda o manual de jogo em Nuuk

A posição de Gifford aponta para uma estratégia norte-americana mais assente no terreno: menos pânico sobre “perder” a Gronelândia e mais foco nas preocupações diárias da ilha. O primeiro passo prático é evidente (e, por isso mesmo, pouco espectacular): contacto regular e profundo. Delegações académicas, investigadores do clima, projectos de saúde, intercâmbios culturais - iniciativas que raramente chegam à primeira página, mas que constroem confiança com o tempo.

A reabertura de um consulado dos EUA em Nuuk, em 2020, encaixa nessa lógica: sinaliza que a presença contínua pesa mais do que a pose.

Há uma armadilha recorrente quando responsáveis ocidentais aterram em Nuuk ou em Copenhaga: começam por discursos longos sobre rivalidade entre potências e segurança no Árctico, enquanto os jornalistas locais perguntam por direitos de pesca, saúde mental, ou pelo degelo do permafrost debaixo das casas. Esta falta de sintonia cria distância - e torna mais fácil a qualquer investidor estrangeiro (chinês, europeu, seja quem for) aparecer com ofertas concretas: uma estrada, uma exploração mineira, um cabo de internet.

A abordagem mais honesta - aquela que Gifford parece sugerir - começa por escutar. Não como fotografia para redes sociais, mas como método de trabalho.

E é por isso que a frase “não há qualquer verdade” na narrativa da tomada de controlo por Rússia–China tem impacto: abre espaço para uma história diferente, conduzida por escolhas gronelandesas e não por receios importados.

“Se insistirmos em falar da Gronelândia apenas como campo de batalha, falhamos o essencial”, disse-me recentemente um investigador dinamarquês do Árctico. “As pessoas querem parceiros, não protectores a agitar bandeiras por cima das suas cabeças.”

  • Mudar o enquadramento - Menos conversa sobre “ameaças”, mais projectos partilhados: ciência do clima, educação, infra-estruturas.
  • Aparecer com consistência - Presença de longo prazo supera visitas de última hora quando rebenta uma “crise”.
  • Respeitar prioridades locais - Debates gronelandeses sobre independência, mineração ou política linguística não são notas de rodapé.
  • Aceitar a complexidade - Rússia e China são actores no Árctico, mas não marionetistas do futuro da Gronelândia.
  • Contar histórias mais completas - Media e decisores que vão além das manchetes alarmistas ajudam a reduzir as tensões que dizem temer.

Um ponto muitas vezes ignorado: autonomia, Dinamarca e a vida acima das manchetes

Uma parte do ruído internacional esquece a arquitectura política real: a Gronelândia é um território com ampla autonomia dentro do Reino da Dinamarca, com ambições e ritmos próprios, e com um debate interno sensível sobre independência, receitas e sustentabilidade. Quando o exterior transforma tudo num duelo EUA–Rússia–China, corre-se o risco de achatamento: como se a política local não tivesse agência nem prioridades.

Também ajuda recordar que o envolvimento norte-americano no Árctico não começa hoje nem depende apenas de “novos” concorrentes. A presença estratégica norte-americana existe há décadas, e a cooperação com a Dinamarca e com as autoridades locais é um trabalho de continuidade. A diferença - e é aí que Gifford insiste - está em escolher se essa presença é percebida como parceria útil para quem vive na ilha, ou como pressão motivada por pânico geopolítico.

O que este debate diz sobre nós, e não apenas sobre a Gronelândia

A disputa retórica sobre Rússia e China na Gronelândia não se resume a radares e minerais. Funciona também como espelho: mostra a rapidez com que a política procura medo, vilões simples e relógios a contar. A recusa tranquila de Gifford em alinhar com esse guião soa quase subversiva numa época feita de indignação e urgência.

Ele não está a idealizar a Gronelândia. Está a dizer algo mais desconfortável: a dramatização que projectamos sobre o lugar diz, muitas vezes, mais sobre nós do que sobre o que se passa no terreno.

Para quem está longe do Árctico, isto pode parecer abstracto - mas o padrão é familiar. Uma região distante vira símbolo (das alterações climáticas, da competição global, do declínio do Ocidente) e as pessoas que lá vivem tornam-se figurantes. A Gronelândia já carregou todos esses rótulos. Ao contrariar a narrativa da “ameaça”, o antigo embaixador empurra Washington e os media para abrandarem, ouvirem melhor e confiarem num princípio simples: um parceiro tratado com respeito tem menos razões para procurar alternativas noutros lados.

Não é um final de Hollywood. É mais lento, mais imperfeito e mais humano - e é precisamente por isso que pode resultar.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Gifford rejeita a narrativa de “tomada de controlo” O antigo embaixador dos EUA afirma que não há verdade nas alegações de que Rússia ou China estejam perto de controlar a Gronelândia Ajuda a separar histeria mediática de realidade na geopolítica do Árctico
As prioridades locais são determinantes Os gronelandeses concentram-se em emprego, autonomia e clima, não em enredos de “tabuleiro de xadrez” Oferece uma lente mais humana para interpretar futuras manchetes do Árctico
Presença supera pânico Envolvimento estável e respeitador dos EUA funciona melhor do que reacções ditadas pelo medo Mostra como políticas mais serenas podem reduzir as tensões que alimentam receios

Perguntas frequentes (FAQ)

  • Pergunta 1: Quem é o antigo embaixador dos EUA que contesta a narrativa de ameaça Rússia–China na Gronelândia?
    Resposta: Rufus Gifford, que foi embaixador dos EUA na Dinamarca durante a presidência de Barack Obama, rejeitou publicamente a ideia de que a Rússia ou a China estejam prestes a tomar conta da Gronelândia.

  • Pergunta 2: A Rússia tem alguma presença real na Gronelândia?
    Resposta: A Rússia tem interesses e meios militares no seu próprio espaço árctico, mas não existe uma base russa nem controlo político directo na Gronelândia. A linguagem de “tomada de controlo” nasce sobretudo de debates especulativos de segurança, não de factos no terreno.

  • Pergunta 3: E o papel da China na Gronelândia?
    Resposta: A China demonstrou interesse económico, em especial em mineração e infra-estruturas, e chegou a explorar financiamento para projectos aeroportuários. Esses planos foram reduzidos ou reencaminhados após reacções da Dinamarca e dos EUA. Pequim pode ser um parceiro económico - não um “governador escondido”.

  • Pergunta 4: Porque é que alguns responsáveis ocidentais continuam alarmados com a Gronelândia?
    Resposta: Porque o Árctico aquece rapidamente, surgem novas rotas de navegação e oportunidades de recursos, e tanto a Rússia como a China estão activas na região em sentido lato. Isso alimenta cenários de pior caso, mesmo quando a realidade política local na Gronelândia é bem mais prudente e cheia de nuances.

  • Pergunta 5: O que é que Gifford sugere que os EUA façam em vez de amplificarem ameaças?
    Resposta: As suas declarações apontam para envolvimento constante: mais presença em Nuuk, mais parcerias concretas em clima, educação e infra-estruturas, e uma prática continuada de ouvir vozes gronelandesas em vez de falar sobre elas à distância.

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