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Chamamos a isto autocuidado, mas a nossa obsessão pelo bem-estar é apenas egoísmo disfarçado.

Mulher jovem a meditar num tapete de yoga em casa, com idosa a entrar pela porta com sacola de compras.

A rapariga na mesa do café ao meu lado fecha os olhos antes de dar um gole ao seu latte de “leite da lua” por 13 €. Tem o diário aberto, um elástico de seda no pulso e um saco de pano com a frase “Autocuidado ou nada”. À volta, há gente curvada sobre portáteis, a despachar a pausa de almoço, a mastigar depressa demais. Ela, pelo contrário, senta-se quase como uma santa, envolta numa nuvem de pau-santo e espuma de aveia, inteiramente concentrada na cerimónia de tomar conta de si.

Vejo-a inclinar o telemóvel com cuidado para apanhar o vapor para uma story no Instagram.

No ecrã, aquilo vai parecer presença.

A dois metros de distância, parece muito mais uma encenação.

Quando o “autocuidado” deixa, em silêncio, de ser cuidado

Houve um tempo em que o autocuidado era discreto, quase imperceptível. Beber água, dormir, ligar à mãe, dar uma volta a pé, faltar ao trabalho quando o corpo já não aguenta. Nada de brilhante, nada de fotogénico. Era sobrevivência com um toque de gentileza.

Hoje, o pacote costuma trazer velas com marca, retiros de 280 € e uma rotina de bem-estar que se lê como um part-time. Já não descansas: fazes “biohacking”. Já não comes: “alimentas o desempenho”.

As palavras mudaram - e a energia por trás delas também.

Basta percorrer qualquer rede social para reconhecer a mesma coreografia: ioga aéreo ao nascer do sol, banhos de gelo em câmara lenta, a estética da “vida leve” em que a decisão mais difícil é escolher a taça de matcha.

E depois surgem as versões mais duras desta história. A mulher que anuncia que está a “proteger a sua paz” ao cortar relações com qualquer pessoa que não vibre “na sua frequência” - incluindo a irmã exausta que precisa de ajuda com os miúdos. O homem que publica sobre “limites de saúde mental” enquanto desaparece dos amigos sempre que aparece um problema real que não se resolve em três mensagens.

Toda a gente está tão concentrada em cuidar de si que sobra pouco espaço para cuidar de mais alguém.

Aqui é que a linguagem começa a escorregar. Porque quem é que vai discutir saúde mental? Quem é que vai ser contra terapia, descanso, ou parar quando se está no limite? Isso é verdadeiro, é necessário e, por vezes, salva vidas.

A viragem acontece quando o autocuidado deixa de ser recarregar para conseguires viver (e estar presente) e passa a ser um pretexto para fugir às partes confusas e exigentes de ser humano com outros humanos. Quando “preciso de tempo para mim” vira um escudo educado para “as tuas necessidades dão-me trabalho”.

Nessa altura, o bem-estar já não está a curar. Está apenas a fornecer um álibi bem perfumado.

Há ainda um pormenor que pesa, especialmente em Portugal: vivemos numa cultura de “aguentar”, de não incomodar, de ir “só mais um bocadinho”. Isso faz com que muita gente descubra o autocuidado tarde - e, quando descobre, agarre-se a ele como se fosse a única tábua de salvação. O problema não é precisar de descanso; é transformar o descanso numa identidade que não admite interrupções.

E há também o outro lado: um país onde as redes de apoio (família, vizinhança, amigos) muitas vezes substituem aquilo que os serviços não conseguem cobrir. Quando o autocuidado vira isolamento, não é só uma escolha individual - mexe com o tecido que mantém as pessoas de pé quando a vida aperta.

Autocuidado e bem-estar sem te fechares sobre ti próprio

Há um teste simples - sem cristais, sem coach - que ajuda a separar cuidado de fuga. Antes de dizeres “sim” a um hábito de bem-estar ou “não” a alguém, pergunta: “Isto vai tornar-me mais presente ou mais ausente?”

Um banho que te ajuda a descomprimir depois de uma semana brutal e te permite ser mais paciente com o teu parceiro? Presença.

Um banho que “tem de ser tempo sagrado” todas as noites, custe o que custar - mesmo com o teu filho doente e a tua amiga acabada de levar um desgosto amoroso a precisar de falar? Isso já não é cuidado: é retirada.

Uma pergunta, feita com honestidade, corta muito ruído.

A armadilha em que muitos caímos é confundir limites com barricadas. Pôr um limite é dizer: “Consigo falar hoje, mas só uns minutos; estou esgotado.” Erguer uma barricada é decretar: “Não tenho conversas emocionais depois das 18h por causa da minha rotina de autocuidado.”

Um protege a tua energia para poderes continuar a dar. O outro protege o teu conforto para nunca teres de esticar.

Sejamos realistas: ninguém faz isto impecavelmente todos os dias, por mais convincente que seja o vídeo da rotina matinal. Às vezes ajustamos, às vezes cedemos, às vezes cancelamos a aula de ioga porque há um amigo a chorar no chão da cozinha. Isso não é falhar no autocuidado. É exactamente para isso que ele serve.

Todos já conhecemos esse momento: estás prestes a pôr o telemóvel em modo de avião para a tua “hora sagrada de bem-estar” e alguém de quem gostas liga, claramente em aflição - e, por um instante, sentes irritação por te estarem a interromper o ritual.

  • Repara na irritação. Não a transformes em culpa, nem em medalha. Observa-a.
  • Pergunta-te: “O meu autocuidado está a ajudar-me a amar melhor ou está a tornar-me difícil de alcançar?”
  • Escolhe com intenção: “Agora, o que pesa mais - o meu plano ou esta pessoa?”
  • Alterna: nuns dias escolhes o banho; noutros, escolhes a chamada. Com o tempo, o padrão revela-te quem estás a ser.
  • Autocuidado que nunca te custa qualquer desconforto raramente é cuidado. Normalmente é marca pessoal em forma de estilo de vida.

Da cura a solo à responsabilidade partilhada

Existe uma versão mais silenciosa do bem-estar - menos brilhante no feed, muito mais humana na prática. Cozinhar uma sopa para um amigo e ficar para comer uma tigela com ele. Tomar a medicação e lembrar o colega de casa de tomar a dele. Dizer: “Não consigo resolver isto por ti, mas posso ficar aqui enquanto choras.”

Este tipo de cuidado não te apaga. Inclui-te. Descansas, dormes, dizes que não quando é preciso - e, ao mesmo tempo, aceitas que a tua vida seja, por vezes, interrompida pela vida dos outros.

A verdade desconfortável é que algumas tendências de bem-estar encaixam demasiado bem na obsessão cultural pela optimização individual. Um mundo em que toda a gente é um “projecto de melhoria contínua” é excelente para vender produtos; é bastante cruel quando a tua mãe adoece ou quando um amigo tem uma recaída.

A responsabilidade comunitária é lenta, pouco glamorosa e difícil de monetizar. Ninguém fica viral por “fiquei com o bebé da vizinha para ela dormir uma sesta”. E, no entanto, é essa solidariedade comum - banal, repetida, imperfeita - que impede muita gente de ir ao fundo.

A pergunta não é “Devo praticar autocuidado?” A pergunta é: “Quem beneficia da minha versão de autocuidado - só eu, ou também as pessoas que digo amar?”

Fica com isto um momento. Não como acusação, mas como espelho.

Se a tua vida de bem-estar significa nunca ajudares ninguém a mudar de casa, nunca visitares ninguém no hospital, nunca atenderes uma chamada às 02:00, nunca abdicares de um fim-de-semana quando um amigo entra em crise, isso é informação. Não quer dizer que sejas um monstro. Quer dizer que o equilíbrio está desalinhado.

O cuidado verdadeiro tem fricção. Por vezes deixa-te cansado. E, ainda assim, tende a tornar-te mais suave, mais acessível, menos assustado com as necessidades dos outros. O paradoxo é este: muitas vezes sentimo-nos mais “bem” quando deixamos de orbitar à volta de nós próprios o tempo todo.

Ponto-chave Detalhe Valor para quem lê
Verifica a motivação Pergunta se uma escolha de autocuidado te torna mais presente ou mais ausente nas relações Ajuda a detectar quando o “bem-estar” está a derrapar para a evasão
Limites vs. barricadas Protege a tua energia sem usares o “autocuidado” como escudo contra qualquer exigência Permite descansar sem te isolares aos poucos
Escolhe cuidado partilhado Combina práticas a solo com actos concretos de apoio aos outros Constrói uma vida em que te sentes cuidado e necessário, não apenas optimizado

Perguntas frequentes

  • O autocuidado é egoísta por definição?
    Não. O autocuidado torna-se egoísta quando é usado sobretudo para escapar à responsabilidade ou à empatia, em vez de te restaurar para viveres e te relacionares com mais inteireza.

  • Como sei se fui longe demais com o bem-estar?
    Repara em padrões: as relações estão a rarear? As pessoas dizem que és “difícil de apanhar”? Ficas irritado quando os outros precisam de ti? São sinais de alerta.

  • E se eu estiver em burnout e realmente não tiver nada para dar?
    Então priorizares-te não é egoísmo - é sobrevivência. O essencial é seres honesto sobre a fase em que estás e manteres abertura para voltar a ligar-te quando recuperares capacidade.

  • Posso definir limites fortes sem me sentir culpado?
    Sim. Nomeia o que consegues oferecer, em vez de dizer apenas que não. “Hoje não consigo falar, mas amanhã de manhã ligo-te” respeita os teus limites e a necessidade do outro.

  • Tenho de abandonar as minhas rotinas para ser menos egoísta?
    Não. Mantém as rotinas que ajudam mesmo o corpo e a mente e larga, com cuidado, as que servem sobretudo a imagem ou te mantêm afastado de ligação real.

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