Cientistas selaram, na quarta-feira, antigos blocos de gelo glaciar num santuário sem precedentes na Antártida, com o objectivo de conservar, durante séculos, registos do clima do passado que estão a desaparecer rapidamente.
Instalado na Estação Concordia, a 3 200 metros de altitude, no interior do continente antárctico, este santuário de gelo tira partido do frio natural: os núcleos ficam guardados a cerca de −52 °C, dispensando qualquer sistema de refrigeração.
Primeiros núcleos de gelo no santuário da Estação Concordia, na Antártida
Os dois núcleos de gelo provenientes dos Alpes europeus foram os primeiros a entrar na nova reserva, escavada sob a neve. Estas amostras - recolhidas no Mont Blanc e no Grand Combin - inauguram um arquivo que, no futuro, deverá acolher gelo de glaciares de várias regiões do mundo.
Em condições de céu limpo, mas com frio intenso, na Concordia - situada a aproximadamente 1 000 quilómetros da costa - os investigadores cortaram uma fita azul enquanto as últimas caixas com os núcleos eram colocadas no cofre gelado.
O projecto, descrito como ambicioso, levou quase uma década a concretizar-se e implicou não só dificuldades logísticas como também desafios diplomáticos inéditos.
Como é o santuário: uma caverna de neve para gelo glaciar
Apesar de ser chamado santuário, trata-se, na prática, de uma caverna: tem cerca de 35 metros de comprimento e 5 metros de altura e de largura. Foi aberta a aproximadamente 10 metros abaixo da superfície, num manto de neve compacta onde as temperaturas negativas se mantêm estáveis.
A opção por armazenamento em “frio natural” pretende reduzir riscos associados a falhas de equipamentos e garantir condições constantes ao longo do tempo, preservando o gelo glaciar como se estivesse num arquivo de longo prazo.
Para evitar a degradação destes registos, as equipas dão prioridade a procedimentos de manuseamento rigorosos: acondicionamento em caixas isoladas, transporte planeado para minimizar variações de temperatura e controlo de acesso às amostras, de modo a reduzir o risco de contaminação e de danos mecânicos.
O que revelam os núcleos de gelo: segredos invisíveis do clima antigo
Extraídos do interior de glaciares de montanha, os núcleos de gelo formam-se lentamente, à medida que a neve se acumula e se compacta ao longo do tempo. No seu interior ficam aprisionadas poeiras e outros indicadores climáticos que ajudam a reconstruir condições meteorológicas de há milhares de anos.
Uma camada de gelo transparente pode indicar um período mais quente, em que houve degelo seguido de recongelação. Já uma camada de baixa densidade tende a apontar para neve compactada (e não gelo), o que pode ajudar a estimar a precipitação.
Quando as amostras surgem quebradiças e com fissuras, isso pode sugerir queda de neve sobre camadas parcialmente derretidas, que depois voltaram a gelar. Existem ainda outros sinais valiosos: materiais de origem vulcânica, como iões sulfato, funcionam como marcadores temporais; e isótopos da água permitem inferir temperaturas.
Carlo Barbante, cientista do clima italiano e vice-presidente da Ice Memory Foundation, sublinhou que o valor mais decisivo destes registos “está no futuro”: investigadores vindouros poderão usar tecnologias ainda inimagináveis para extrair informação que hoje permanece invisível.
Essa aposta no longo prazo é também uma corrida contra o tempo. Com o aquecimento global, estes arquivos naturais fragilizam-se, e os cientistas alertam que, nas próximas décadas, milhares de glaciares poderão desaparecer ano após ano.
Na mesma quarta-feira, entidades de monitorização climática dos Estados Unidos e da Europa confirmaram que 2025 foi o terceiro ano mais quente de que há registo, prolongando uma sequência de calor sem precedentes, atribuída em grande parte à queima de combustíveis fósseis pela humanidade.
“Estamos numa corrida contra o tempo para resgatar este património antes que desapareça para sempre”, afirmou Barbante.
“Um esforço da humanidade”: a missão da Ice Memory Foundation
Thomas Stocker, cientista do clima suíço e presidente da Ice Memory Foundation - entidade que liderou a iniciativa - defendeu que proteger aquilo que, de outra forma, se perderia irreversivelmente “é um esforço da humanidade”.
Além de guardar amostras concretas, o projecto pretende assegurar que, mesmo que os glaciares derretam, permaneça um registo físico do seu passado, disponível para investigação futura e para compreender melhor as mudanças climáticas.
Como complemento, a iniciativa pode também reforçar a sensibilização pública: ao tornar tangível o desaparecimento do gelo, ajuda a ligar dados científicos a decisões colectivas, desde a educação à formulação de políticas climáticas baseadas em evidência.
Bem comum global: neutralidade e acesso científico
Para lá das razões ambientais, a localização do santuário foi escolhida para assegurar um estatuto de neutralidade dos núcleos de gelo, protegendo-os de interferências políticas e mantendo-os acessíveis a todos.
O arquivo fica numa estação de investigação franco-italiana, em território regido por um tratado internacional, e o acesso futuro deverá ser concedido exclusivamente com base no mérito científico.
Ainda assim, estas questões foram consideradas “delicadas” porque não existe, por enquanto, um enquadramento jurídico específico que regule uma iniciativa deste tipo, explicou à AFP, antes da inauguração, a directora da fundação, Anne-Catherine Ohlmann.
Segundo Ohlmann, é essencial que este património seja governado de forma a garantir que os núcleos de gelo estejam disponíveis dentro de algumas décadas - e possivelmente dentro de alguns séculos - para os destinatários certos, pelos motivos certos e em benefício da humanidade.
Próximos passos: recolhas nos Andes, Himalaias e Tajiquistão
Nas próximas décadas, a equipa pretende enriquecer o arquivo com gelo glaciar de outras regiões alpinas, incluindo os Andes, os Himalaias e o Tajiquistão - onde foi observada a extracção de um núcleo com 105 metros em Setembro.
À medida que novas amostras forem incorporadas, o santuário na Antártida deverá transformar-se num repositório global, capaz de preservar, em segurança, uma memória material do clima do planeta.
© AFP
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