Numa manhã poeirenta nos arredores de Riade, as gruas estavam imóveis. À vista, alinhavam-se estruturas de aço a meio, expostas ao brilho do sol, cercadas por outdoors que, até há pouco, juravam trazer “Hollywood ao deserto”. Um ano antes, olheiros de locais e produtores tinham sido levados de avião privado para conhecer o local: o sonho da Arábia Saudita de acolher o maior complexo de produção cinematográfica da região. Tiraram fotografias, beberam café com cardamomo, acenaram com simpatia perante imagens em 3D de zonas de rodagem futuristas. Depois, regressaram a casa.
As passadeiras vermelhas nunca apareceram. As câmaras não arrancaram.
Entretanto, os slogans oficiais mudaram para outros giga‑projectos, e a conversa sobre o mega‑estúdio foi desaparecendo discretamente das prioridades públicas. Ainda assim, a forma como esta ideia se esfumou diz muito sobre o que acontece quando o dinheiro encontra a cultura, a velocidade colide com a confiança e um reino tenta escrever uma identidade nova.
Alguma coisa nesse guião não resultou.
Mega‑estúdio saudita: quando o maior cheque do mundo não chega
A história base tem, por si só, algo de cinematográfico. A Arábia Saudita queria um símbolo: o maior complexo de produção cinematográfica do Médio Oriente, capaz de eclipsar os estúdios do Dubai e de fazer frente a centros de produção europeus procurados por plataformas como a Netflix. A proposta era sem meias-medidas - subsídios gigantes, benefícios fiscais, hotéis de cinco estrelas no próprio recinto e até a ideia de uma zona franca criativa. Fundos apoiados pelo Estado seduziram estúdios norte-americanos, produtores europeus e operadores regionais com apresentações polidas e visitas guiadas com tratamento VIP.
No papel, parecia inevitável.
Mas, longe das câmaras, a hesitação instalou-se. Houve quem assinasse memorandos de entendimento, comparecesse a reuniões e elogiasse a ambição. Só que, com o tempo, os calendários de produção foram sendo desviados para Abu Dhabi, Jordânia, ou de volta para estúdios em Praga e Londres. O mega‑estúdio saudita nunca ultrapassou aquela fronteira invisível entre uma promessa inspiradora e um prazo fechado.
Um produtor que passou por lá no final de 2022 descreveu o ambiente como “uma mistura de fascínio e tontura”. Caminhou por cenários temporários erguidos perto de Riade, acompanhado por um pequeno exército de facilitadores, tradutores e responsáveis oficiais, todos muito prestáveis, a falar de reembolsos até 40% e licenças em via rápida. Mostraram-lhe óculos de realidade virtual com um voo animado pelo futuro complexo: enormes estúdios, tanques de água, uma cidade inteira de cenários permanentes. Até que ele fez uma pergunta simples - “A quem é que ligo se uma grua avaria no meio da rodagem às 02:00?” - e a sala ficou em silêncio.
Os números brilhantes estavam todos lá.
O ecossistema real - equipas experientes, culturas de segurança rotinadas, fornecedores “aborrecidos” mas essenciais - continuava a ser um esboço num diapositivo.
Essa distância entre visão e infraestrutura foi corroendo o projecto. Os grandes estúdios já se queimaram com incentivos vistosos que falham quando são postos à prova: reembolsos que atrasam, surpresas de censura, problemas de vistos para equipas estrangeiras. A indústria não esquece depressa. E a Arábia Saudita, que só recentemente reabriu as salas de cinema após uma proibição de 35 anos, pedia-lhes que apostassem num território ainda a definir as suas linhas vermelhas.
Ao mesmo tempo, havia concorrentes que já tinham feito o trabalho lento e pouco glamoroso. Abu Dhabi não oferecia apenas um reembolso; mostrava resultados: Duna, Missão: Impossível, Velocidade Furiosa. A Jordânia apontava para Perdido em Marte e Aladino. Marrocos carregava décadas de épicos no deserto.
O projecto saudita não naufragou por falta de capital. Foi esvaziado pela falta de tempo e, sobretudo, de confiança.
O recuo silencioso no terreno: reuniões adiadas, prioridades trocadas
A retirada não veio com conferências de imprensa nem com um anúncio limpo de cancelamento. Em vez disso, reuniões ficaram “para mais tarde” e comissões foram “reorganizadas”. Certas páginas do projecto desapareceram de alguns canais oficiais, e a linguagem mudou: de “o maior da região” para uma formulação mais vaga sobre “desenvolver um ecossistema cinematográfico vibrante”. Nos bastidores, o dinheiro foi sendo empurrado para vitórias menores e mais rápidas: formação de equipas locais, apoios a realizadores sauditas, melhoria de espaços existentes em vez de construir um megacampus de raiz.
O esqueleto do sonho original não sumiu por completo - alguns lotes de terreno e planos iniciais ainda existem -, mas a promessa grandiosa foi sendo reduzida em silêncio. Nota-se isso nas conversas com pessoas que antes estavam prontas a mudar-se, e que hoje respondem com prudência e sem compromissos.
Um director de produção libanês que chegou a viver em Riade por pouco tempo acreditou estar a entrar num boom irrepetível. Lembra-se de receber um pacote de relocalização, um título chamativo e uma ordem clara: “preparar milhares de dias de rodagem por ano”. Visitou terrenos ainda por desenvolver no deserto, participou em sessões de trabalho e ajudou a desenhar tabelas de valores para equipas que, na prática, ainda não existiam. Meses depois, havia poucas reservas confirmadas. Negociações com grandes estúdios norte‑americanos ficaram bloqueadas, à espera de regulamentação actualizada e de parceiros de estúdio prometidos que nunca chegaram a assinar.
Viu colegas regressarem ao Dubai e a Amã, onde o trabalho é contínuo e a logística previsível.
O contrato dele terminou sem ruído. E o grande complexo, que deveria ser o protagonista, tornou-se apenas mais um ponto numa apresentação extensa da Visão 2030 - longe do centro do palco.
Dois obstáculos pouco falados: clima de rodagem e rotinas legais
Há ainda factores práticos que raramente aparecem nos outdoors. Rodar no Golfo implica planeamento apertado por causa do calor extremo em parte do ano, exigindo horários nocturnos, mais custos de segurança e soluções de refrigeração para equipamento e equipas. Mesmo com dinheiro, a pergunta torna-se operacional: existe capacidade local para suportar longos períodos de rodagem em condições duras sem importar tudo a preço premium?
E há o lado jurídico do dia-a-dia: seguros, responsabilidade civil, regras de trabalho, contratos padrão e previsibilidade na aprovação de conteúdos. Para um estúdio global, o essencial não é só “quanto é o incentivo”, mas se as regras são claras hoje e permanecem claras daqui a cinco anos - exactamente quando a produção seguinte estiver a ser montada.
O que este recuo revela sobre como os mega‑projectos vivem (ou morrem)
A lógica por trás deste recuo explica muito sobre a anatomia dos giga‑projectos. Os decisores sauditas falharam uma regra central do negócio: os estúdios procuram certeza com ainda mais fome do que procuram subsídios. Um reembolso em dinheiro de 30% a 40% é espectacular numa folha de cálculo; porém, se os executivos temem cortes de guião em cima da hora, regras de conteúdo ambíguas ou atrasos na importação de equipamento, aceitam um reembolso menor noutro lugar.
O cinema pode ser arte, mas a produção de cinema é gestão de risco.
As realidades locais também pesaram. Construir “o maior da região” num país que ainda está a formar uma classe média criativa é um salto enorme. É possível contratar especialistas estrangeiros durante alguns anos, mas se não existir uma base larga de maquinistas, técnicos de iluminação, contabilistas de produção e gestores de locais, acaba-se por importar um ecossistema inteiro - e isso sai caro, lento e frágil.
A verdade é simples: ninguém reconfigura uma indústria global com um único anúncio grandioso.
Lições de um giga‑projecto que piscou primeiro
Se há uma conclusão prática, é esta: projectos de poder brando precisam primeiro de competências “brandas”. Por trás do complexo cancelado (ou encolhido) existe um método que muitos países seguiram para ganhar credibilidade: acumular vitórias pequenas e repetíveis. Começar por co‑produções. Receber equipas estrangeiras em instalações já existentes. Formar equipas locais lado a lado com veteranos importados em rodagens reais - e não apenas em salas de aula. Só depois, escalar.
A Arábia Saudita parece estar a inclinar-se para esse caminho: mais bolsas para projectos independentes, mais festivais, mais parcerias com plataformas de streaming focadas em histórias sauditas. É menos brilhante do que anunciar “o maior estúdio da região”, mas aproxima-se do modo como surgem centros de produção resilientes.
No lugar do sonho do mega‑estúdio, está a nascer algo mais confuso, mais lento e, provavelmente, mais verdadeiro.
Para criadores e profissionais que observam de fora, esta mudança pode ser desgastante. Faz-se a mala para um boom prometido e, quando se chega, a estratégia já mudou. A sensação de perceber que o “plano” era, afinal, um painel de inspiração é fértil em cinismo - e torna fácil revirar os olhos sempre que aparece uma nova “cidade criativa” ou um novo “centro global”.
Mesmo assim, por baixo das palavras vagas, há oportunidades reais: uma comissão de cinema a financiar curtas-metragens de forma discreta, investidores privados a testar séries dramáticas, plataformas regionais à procura de histórias sauditas que soem autênticas. O erro é acreditar que a única oportunidade vive no projecto mais barulhento e mais reluzente.
Um distribuidor regional resumiu a questão sem rodeios:
“A Arábia Saudita percebeu que não se atira um mega‑estúdio para o deserto e se espera que a indústria apareça por magia. As equipas precisam de experiência, os argumentistas precisam de espaço para falhar, e os estúdios precisam de dez reuniões aborrecidas antes de assinarem o que quer que seja.”
E apontou para factores simples, quase prosaicos, que decidem onde as câmaras acabam por rodar:
- As licenças são rápidas, transparentes e consistentes?
- As equipas sabem o que fazer quando algo falha às 03:00?
- Os produtores conseguem prever o que, na prática, será permitido no ecrã?
- Há alojamento, apoio à família (incluindo creches) e vida fora do set para elenco e equipa?
- O dinheiro, os incentivos e os contratos vão continuar a existir daqui a cinco anos?
Não é isto que aparece em outdoors brilhantes. Mas são estas fundações silenciosas que impedem uma cidade de cinema de se tornar apenas mais um cenário vazio.
O próximo acto das ambições cinematográficas da Arábia Saudita
O esbatimento desta história do megacomplexo não significa que a experiência cinematográfica saudita tenha acabado. Se alguma coisa, pode forçar a transição que era necessária desde o início: do espectáculo para a substância. Está a surgir uma geração de cineastas sauditas a contar histórias mais pequenas e mais arriscadas - por vezes com apoio regional, por vezes com meios próprios, filmadas em apartamentos reais em vez de em cenários gigantes. Equipas estrangeiras continuam a chegar para paisagens desérticas e panoramas urbanos, mesmo que aterrem em palcos mais modestos do que os prometidos nas apresentações iniciais.
O poder brando do reino não será decidido por um único campus monumental, mas por conseguir sustentar um ecossistema que resista a mudanças de humor político e às oscilações do petróleo.
Para leitores, espectadores e profissionais, este episódio funciona como lembrete. Os giga‑projectos fazem manchetes; as mudanças culturais verdadeiras acontecem em espaços muito mais discretos: salas de argumentistas apertadas, oficinas ao fim do dia, montagens nocturnas em portáteis a aquecer. Um complexo engavetado pode parecer um fracasso; também pode ser uma viragem - menos monumentos e mais pessoas.
Se os decisores sauditas levarem isso a sério - menos “o maior” e mais “o mais fiável” -, a história deste mega‑estúdio adiado pode vir a ser apenas um rascunho necessário. E, algures, uma realizadora continuará a captar o nascer do sol no deserto. Só não será no set que supostamente ia mudar tudo.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| A Arábia Saudita reduziu o plano do mega‑estúdio | O maior complexo cinematográfico da região saiu discretamente da agenda depois de não garantir compromissos de grandes estúdios | Ajuda a perceber como projectos culturais mediáticos podem empancar mesmo com financiamento massivo |
| A confiança pesa mais do que incentivos brutos | Os estúdios preferiram centros estabelecidos como Abu Dhabi e Jordânia, com histórico e regras estáveis | Mostra por que razão a fiabilidade - e não apenas dinheiro - orienta decisões de longo prazo |
| O jogo real é construir um ecossistema | O país está a recentrar-se em formação, histórias locais e infraestrutura em menor escala | Indica onde podem surgir oportunidades sustentáveis para criadores e trabalhadores do sector |
Perguntas frequentes
Pergunta 1 - A Arábia Saudita cancelou oficialmente o complexo de produção cinematográfica?
Não houve um anúncio público inequívoco de cancelamento. No entanto, as referências ao complexo “o maior da região” foram desaparecendo, as prioridades de financiamento mudaram e fontes do sector descrevem o plano original como, na prática, engavetado ou drasticamente reduzido.
Pergunta 2 - Os incentivos financeiros eram mesmo assim tão atractivos?
Sim. No papel, os reembolsos e pacotes de apoio eram altamente competitivos e chamaram a atenção de grandes estúdios. A resistência surgiu sobretudo por dúvidas sobre regulamentação, logística e fiabilidade no terreno.
Pergunta 3 - Porque é que os estúdios escolheram outros locais no Médio Oriente?
Abu Dhabi, Jordânia e Marrocos já contam com equipas experientes, sistemas de reembolso testados e um historial sólido a receber grandes produções internacionais - o que tranquiliza estúdios naturalmente avessos ao risco.
Pergunta 4 - Isto quer dizer que a Arábia Saudita está a recuar no cinema?
Não. O país continua a investir em salas de cinema, festivais, programas de formação e conteúdo local. O que está a mudar é o foco: de um complexo‑bandeira sobredimensionado para uma abordagem mais ampla e gradual de construção de ecossistema.
Pergunta 5 - O que significa isto para realizadores e equipas a considerar a Arábia Saudita?
Sugere que as melhores oportunidades podem surgir em co‑produções, séries locais e rodagens de menor escala, em vez de depender de um único mega‑estúdio. Quem for paciente e flexível pode encontrar um mercado em crescimento - só não será a fantasia imediata de “Hollywood no deserto” que chegou a ser vendida.
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