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Cientista descobre por acaso estranhas “estruturas enrugadas” antigas em Marrocos que não deviam existir.

Homem escavando fósseis em rocha sedimentar num deserto com montanhas ao fundo, usando luvas.

Aqueles padrões ténues e enrugados, impressos em lajes antigas de arenito e siltito, revelaram-se afinal restos de comunidades microbianas de mar profundo que, à primeira vista, não deveriam existir no local onde se formaram.

Estruturas enrugadas antigas no sítio “errado” (Alto Atlas Central)

As texturas fósseis invulgares foram identificadas no Alto Atlas Central, no Vale do Dadès (Marrocos), em camadas rochosas conhecidas como Formação de Tagoudite. A sua idade ronda os 180 milhões de anos, remontando ao período Jurássico.

A investigadora principal, Rowan Martindale, geobióloga na Universidade do Texas em Austin, estava na região para analisar antigos sistemas recifais. Ao atravessar um afloramento, reparou que a superfície sob as botas apresentava uma ondulação subtil - como se fosse um tecido mineralizado, com dobras e pequenas pregas.

Estas estruturas enrugadas costumam associar-se a tapetes microbianos de águas rasas e iluminadas, e não às zonas escuras do fundo oceânico antigo.

É precisamente esta discrepância que torna o achado surpreendente. As rochas que alojam as marcas são turbiditos - depósitos deixados por deslizamentos submarinos, correntes rápidas e carregadas de lama e areia que descem pelo talude continental.

A análise geológica indica que estes sedimentos se acumularam a pelo menos 180 m de profundidade. Nestas condições, a luz que chegaria ao fundo seria mínima, insuficiente para sustentar vida dependente de iluminação.

O que são estruturas enrugadas e porque interessam?

As estruturas enrugadas são padrões discretos e ondulados preservados à superfície de sedimentos antigos. Em geral, formam-se quando tapetes microbianos pegajosos cobrem lama ou areia ainda macia e interagem com correntes, agitação da água ou partículas em deposição.

Os tapetes resultam de comunidades microbianas estratificadas que retêm e cimentam grãos. Com o soterramento, tanto o tapete como as microtexturas que gera podem ficar preservados e, com o tempo, litificar.

As estruturas enrugadas são frequentemente tratadas como um dos indícios mais úteis para seguir o rasto de vida muito antiga na Terra, sobretudo antes da abundância de animais.

A maior parte dos exemplos clássicos provém de rochas com mais de 540 milhões de anos, de épocas em que animais escavadores eram raros. Quando vermes, crustáceos e outros organismos passaram a remexer os sedimentos do fundo do mar, muitas destas marcas delicadas foram destruídas.

Por isso, encontrar estruturas tão nítidas em rochas do Jurássico já é pouco comum. Descobri-las em turbiditos de águas profundas é ainda mais inesperado.

Sem luz suficiente: a energia veio da quimiossíntese

A primeira pergunta da equipa foi direta: se não havia luz relevante, de onde vinha a energia destas comunidades? As formas lembravam tapetes de microrganismos fotossintéticos, mas o ambiente não encaixava nessa explicação.

Os testes químicos ajudaram a clarificar o cenário. As camadas com estruturas enrugadas apresentavam teores elevados de carbono, um sinal fortemente ligado a atividade biológica. Ao mesmo tempo, não havia indícios de que a luz solar tivesse sido o motor energético dominante naquele local.

A conclusão foi que os microrganismos antigos eram quimiossintéticos, obtendo energia de reações químicas em vez de luz.

Organismos quimiossintéticos extraem energia ao oxidar substâncias como sulfureto de hidrogénio, metano ou ferro reduzido. Hoje, comunidades deste tipo prosperam junto de fontes hidrotermais, em exsudações frias e em certos sectores das margens continentais.

No contexto jurássico do Vale do Dadès, o combustível mais plausível terá vindo dos próprios deslizamentos. Cada “avalanche” submarina arrastaria matéria orgânica da plataforma mais rasa para águas profundas. À medida que essa matéria orgânica se decompunha, libertaria compostos que poderiam alimentar microrganismos quimiossintéticos.

Como os deslizamentos submarinos alimentaram os tapetes microbianos

O estudo propõe um ciclo repetido no fundo marinho antigo:

  • Deslizamentos transportaram sedimentos e detritos orgânicos pela encosta, criando novos leitos de turbiditos.
  • A matéria orgânica nesses leitos degradou-se, gerando metano e sulfureto de hidrogénio.
  • Tapetes microbianos quimiossintéticos colonizaram a superfície e aproveitaram esses compostos.
  • Deslizamentos posteriores, por vezes, soterraram ou rasgaram os tapetes, preservando as estruturas enrugadas no processo.

Nem todos os episódios teriam deixado registo fóssil. Muitos tapetes terão sido destruídos sem qualquer vestígio. Os que ficaram preservados funcionam como “fotografias” de um ecossistema de mar profundo mais duradouro, ativo apesar da instabilidade do ambiente.

Repensar onde procurar registos antigos de vida

A presença de estruturas enrugadas quimiossintéticas em turbiditos de águas profundas põe em causa uma ideia antiga: a de que os melhores locais para encontrar marcas microbianas seriam quase sempre ambientes rasos, tranquilos e bem iluminados.

O trabalho sugere que a atenção excessiva a contextos calmos e pouco profundos poderá ter deixado de fora vastas zonas do fundo oceânico antigo onde a vida também poderia prosperar.

Se tapetes microbianos conseguiram colonizar turbiditos ricos em química no Jurássico, é plausível que comunidades semelhantes tenham existido muito antes. E as rochas profundas mais antigas nem sempre foram examinadas com o cuidado necessário para detetar estruturas tão subtis.

Ao alargar a pesquisa a ambientes mais fundos e instáveis, pode ser possível encontrar estruturas enrugadas que recuem o registo de comunidades microbianas complexas - em especial as que dependem de energia química, e não de luz.

Um aspeto adicional: porque a preservação é tão rara

Em turbiditos, a preservação é uma corrida contra o tempo. Para um tapete microbiano deixar marca, é preciso uma janela curta: o sedimento tem de estar suficientemente estável para permitir colonização, mas também tem de ser soterrado a tempo de “selar” a textura antes de ser erodida ou bioturbada. Essa combinação ajuda a explicar porque estas estruturas aparecem como ocorrências pontuais, mesmo que o ecossistema tenha sido frequente.

Porque a quimiossíntese é importante na história da vida

A quimiossíntese ocupa um lugar central nas discussões sobre a origem da vida. Muitos cenários propõem que os primeiros ecossistemas surgiram em ambientes com muita energia química e pouca luz, como sistemas ligados a fontes hidrotermais.

As estruturas do Marrocos não assinalam o início da vida, mas mostram que comunidades quimiossintéticas estavam ativas em ambientes marinhos profundos muito depois de a fotossíntese ter alterado o planeta. A implicação é clara: estratégias energéticas distintas podem coexistir durante períodos muito longos.

Fonte de energia Ambiente moderno típico Relação com o achado no Marrocos
Luz solar (fotossíntese) Mares rasos, lagos, plantas terrestres Pouco provável a 180 m, devido à fraca iluminação
Químicos (quimiossíntese) Fontes hidrotermais, exsudações frias, algumas margens continentais Explicação mais consistente para os tapetes microbianos de águas profundas
Decomposição orgânica (heterotrofia) A maioria dos ecossistemas O material em decomposição forneceu combustível químico para microrganismos quimiossintéticos

O que isto pode significar para Marte e outros mundos

Descobertas deste tipo também influenciam a forma como se pensa sobre vida fora da Terra. Vários corpos planetários, incluindo Marte e luas geladas como Europa e Encélado, podem ter (ou ter tido) ambientes escuros, subterrâneos ou subaquáticos, com energia química disponível mas pouca ou nenhuma luz.

Os tapetes de águas profundas do Marrocos mostram que a vida consegue organizar-se em comunidades estáveis e estratificadas nestas condições, deixando texturas finas como assinatura. Isso reforça a hipótese de que registos rochosos em Marte - sobretudo em bacias antigas com movimentos de sedimentos ao longo de declives - possam conservar impressões semelhantes, formadas sem necessidade de luz solar.

Termos-chave e como imaginá-los

Alguns termos podem soar técnicos, mas tornam-se simples com comparações diretas:

  • Tapete microbiano - um “tapete” vivo e fino no fundo do mar, composto por milhares de milhões de microrganismos ligados por uma matriz viscosa.
  • Turbidito - uma avalanche lamacenta que desce um canhão submarino e depois assenta, formando camadas de areia e silte.
  • Quimiossíntese - em vez de produzir açúcares com luz, microrganismos geram energia a partir de compostos como o sulfureto de hidrogénio.

Num cenário moderno, em zonas pobres em oxigénio onde matéria orgânica se degrada, podem observar-se tapetes escuros e irregulares a fixarem-se ao substrato. O fundo marinho jurássico no Vale do Dadès poderá ter apresentado aspetos semelhantes em certos períodos - até ser novamente coberto por mais um deslizamento submarino.

Onde os cientistas poderão procurar a seguir

É provável que geólogos regressem agora a formações marinhas profundas antes descartadas por serem demasiado perturbadas - ou demasiado escuras - para conservar biossinais delicados. Margens continentais íngremes, bacias de talude antigas e sistemas de turbiditos mais antigos tornam-se candidatos naturais.

Trabalhos futuros poderão combinar imagem de alta resolução com testes geoquímicos para distinguir estruturas enrugadas genuinamente biológicas de ondulações e riscos puramente físicos. Se surgirem exemplos em rochas ainda mais antigas, isso poderá alterar cronologias sobre quando ecossistemas quimiossintéticos se tornaram comuns.

Para estudantes e leitores interessados em reconhecer estas feições em saídas de campo, a regra é observar com paciência. As estruturas enrugadas são discretas, com pouco relevo, e muitas vezes só se destacam quando a luz incide de forma rasante. É provável que durante décadas se tenha caminhado sobre marcas semelhantes sem perceber que registavam, em silêncio, a vida microbiana a prosperar na escuridão.

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