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Estudo revela aumento de problemas de memória em adultos com menos de 40 anos nos EUA.

Jovem a estudar com laptop e livro aberto sobre cérebro, sentado à mesa numa cozinha luminosa.

A mais recente análise sobre o estado mental da população dos Estados Unidos traz um sinal de alerta: está a aumentar a percentagem de adultos que dizem ter dificuldades de memória, de tomada de decisões ou de concentração - problemas que, em conjunto, são designados por incapacidade cognitiva.

Incapacidade cognitiva nos EUA: o que mostram os dados de 2013 a 2023

Um grupo de investigação norte-americano, liderado pelo investigador em neurologia Ka-Ho Wong, da Universidade do Utah, analisou dados de inquéritos com mais de 4,5 milhões de participantes e concluiu que o crescimento mais acentuado na última década ocorreu entre os 18 e os 39 anos.

No total, a proporção de adultos nos EUA que reportou dificuldades cognitivas graves subiu de 5,3% em 2013 para 7,4% em 2023. Entre as pessoas com menos de 40 anos, a subida foi ainda mais marcada: passou de 5,1% para 9,7% no mesmo período, quase duplicando. Para estas estimativas, foram excluídas as pessoas que indicaram ter depressão.

“Os desafios com a memória e com o pensamento tornaram-se um dos principais problemas de saúde reportados por adultos nos EUA”, afirma o neurologista vascular Adam de Havenon, da Universidade de Yale.

Diferenças por idade: subida generalizada, mas não entre os mais velhos

De um modo geral, a incapacidade cognitiva auto-reportada aumentou na maioria das faixas etárias. Ainda assim, os investigadores não observaram a mesma tendência entre os idosos: no grupo dos 70 anos ou mais, a percentagem desceu ligeiramente, de 7,3% em 2013 para 6,6% em 2023.

Segundo de Havenon, “o nosso estudo indica que estas dificuldades poderão estar a tornar-se mais frequentes, sobretudo entre os adultos mais jovens, e que fatores sociais e estruturais provavelmente têm um papel determinante”.

Fatores sociais e estruturais: rendimento, escolaridade e desigualdades

Entre os elementos associados a este aumento, destaca-se a condição socioeconómica. Os grupos com rendimentos anuais inferiores a 35 000 dólares norte-americanos (USD) e as pessoas com menor escolaridade registaram aumentos de incapacidade cognitiva superiores ao observado no conjunto da população.

Apesar de a prevalência reportada ter subido em todos os grupos raciais e étnicos, os adultos índios americanos e nativos do Alasca apresentaram as taxas mais elevadas.

“Estes resultados sugerem que os aumentos mais abruptos de problemas de memória e de pensamento estão a acontecer entre pessoas que já enfrentam desvantagens estruturais”, sublinha de Havenon.

O retrato mais amplo e o que ainda não se sabe

De acordo com os inquéritos anuais dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC), em 2022 a incapacidade cognitiva afetava 13,9% dos adultos nos EUA, sendo a incairacidade mais frequentemente reportada nesses levantamentos.

O novo estudo não identifica uma causa única e direta, mas junta-se a um corpo de evidência crescente que aponta para uma deterioração preocupante do bem-estar mental. A equipa considera que parte da subida pode dever-se a uma maior disponibilidade das pessoas para assumirem e reportarem problemas de saúde mental, bem como a efeitos persistentes da pandemia de coronavírus - embora seja muito provável que esteja em causa uma combinação de vários fatores.

Os investigadores levantam ainda a hipótese de existir, em especial entre os mais jovens, uma maior abertura para falar de saúde mental. Além disso, sugerem que a incerteza no trabalho e uma maior dependência de ferramentas digitais possam estar a contribuir para o fenómeno.

Limitações do estudo e implicações em saúde pública

Uma das principais limitações é que os problemas cognitivos foram auto-reportados por telefone, em vez de serem avaliados clinicamente. Mesmo assim, os autores defendem que, ainda sem diagnósticos específicos, a dimensão dos valores observados é suficiente para justificar atenção como questão de saúde pública.

“Precisamos de compreender melhor e de atuar sobre os fatores sociais e económicos subjacentes que podem estar a alimentar esta tendência”, afirma de Havenon.

E acrescenta: “É necessária mais investigação para perceber o que está por detrás do grande aumento entre os adultos mais jovens, tendo em conta as possíveis implicações a longo prazo para a saúde, para a produtividade laboral e para os sistemas de cuidados de saúde.”

O que pode ser feito enquanto a investigação avança

Mesmo sem uma causa única confirmada, existem áreas em que medidas de prevenção e mitigação tendem a ser úteis e são compatíveis com a leitura social e estrutural dos resultados. Melhorar o acesso a cuidados de saúde, reforçar a literacia em saúde e reduzir barreiras económicas ao acompanhamento médico pode ajudar a detetar precocemente alterações de memória, de concentração e de tomada de decisões, sobretudo em populações com menos recursos.

Também vale a pena considerar estratégias de “higiene digital” e de organização do trabalho, especialmente para adultos mais jovens: práticas como limitar interrupções constantes, definir períodos sem notificações e promover rotinas de descanso podem reduzir a sobrecarga cognitiva diária. Estas medidas não substituem avaliação clínica quando há queixas persistentes, mas podem contribuir para um ambiente mais favorável ao desempenho cognitivo.

A investigação foi publicada na revista Neurologia.

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