Todos os anos, muitos de nós anunciam, com coragem e entusiasmo, as resoluções de Ano Novo. Um copo de champanhe na noite de passagem de ano pode inflacionar a confiança de que, no ano seguinte, vamos melhorar: poupar mais, gastar menos, comer de forma mais equilibrada, treinar com maior regularidade ou reduzir as maratonas de séries.
Ainda assim, a maioria das resoluções acaba por falhar. Muitas pessoas desistem logo nas primeiras semanas após a passagem de ano.
Apesar disso, nem todos os “fracassos” são interpretados da mesma maneira. A forma como descreve a desistência influencia tanto a sua própria motivação como a confiança que os outros depositam na sua capacidade de recomeçar.
Depois de desistir, o que fazer? Afinal, já partilhou as suas boas intenções com amigos e família - e, agora, tem de reconhecer que não resultou.
A investigação mostra que a maneira como formula uma resolução falhada altera a forma como ela é avaliada pelos outros. E compreender por que razão tantas resoluções não se concretizam pode aumentar a probabilidade de as levar até ao fim no futuro.
Na prática, é possível falar das suas resoluções de Ano Novo de um modo que torne a desistência mais compreensível - e que, ao mesmo tempo, preserve a motivação para tentar novamente.
Uma forma construtiva de abordar uma resolução falhada é centrar-se na controlabilidade do que correu mal. Os estudos indicam que a maioria das resoluções exige algum investimento de tempo e de dinheiro.
Por exemplo, entrar em forma requer tempo para treinar e, normalmente, também implica custos: inscrição num ginásio, aulas ou equipamento para exercício. Como estes dois recursos são importantes para perseguirmos os nossos objectivos, muitas resoluções falham por falta de tempo, por falta de dinheiro - ou por ambos.
No entanto, quando se fala de uma resolução falhada do passado, a minha própria investigação sugere que é preferível salientar o papel da falta de dinheiro, em vez de enfatizar a falta de tempo.
Num estudo meu de 2024, as pessoas leram descrições de participantes (alguns fictícios, outros reais) que tinham falhado por falta de dinheiro ou por falta de tempo. A maioria dos participantes considerou que quem falhou por falta de dinheiro demonstraria, dali para a frente, maior auto-controlo e seria mais fiável na prossecução dos seus objectivos.
Este efeito surgiu porque a falta de dinheiro é vista como algo difícil de controlar. Assim, se esse foi o motivo do insucesso, entende-se que a pessoa tinha pouca margem para evitar o desfecho.
Nesta investigação, a maior parte das resoluções falhadas estava ligada à perda de peso, a uma alimentação mais saudável ou ao treino no ginásio. As avaliações foram semelhantes quer o protagonista fosse homem quer fosse mulher - provavelmente porque é plausível que qualquer pessoa precise de algum tempo e algum dinheiro para perseguir metas diversas, independentemente do género ou do tipo específico de resolução.
Importa notar que a ideia de controlabilidade assume um papel diferente quando a questão é: como fazer melhor da próxima vez?
O papel do tempo nas resoluções de Ano Novo
A investigação também mostra que a forma como encaramos o tempo pesa muito quando lidamos com o fracasso. Ao olhar para o passado, ajuda pensar em factores que escapam ao nosso controlo, porque isso reduz a carga negativa associada à desistência e reforça a crença de que é possível melhorar.
Isso pode significar, por exemplo, reconhecer que a resolução falhou por falta de dinheiro ou por outros recursos que não dependiam directamente de si.
Já quando pensamos no futuro, compensa adoptar uma perspectiva activa em relação ao tempo. Analise a sua agenda e tome decisões deliberadas sobre como distribuir o tempo pelos seus objectivos - por exemplo, marcando sessões no ginásio ou reservando blocos de tempo para preparar refeições saudáveis. Esta abordagem pode aumentar a motivação para recomeçar, porque deixa de ser apenas “vítima” de uma agenda cheia.
Um estudo publicado em Outubro de 2025, centrado em como a falta de tempo contribui para falhas, mostrou que as pessoas recuperam uma sensação de controlo quando falam em “arranjar tempo” em vez de “ter tempo”. Quem descreveu os seus insucessos como resultado de não ter “arranjado” tempo sentiu que poderia agir de forma diferente no futuro - e mostrou maior motivação para o fazer.
A razão é que “arranjar tempo” sugere controlo activo sobre a agenda, ao passo que “ter tempo” transmite uma postura mais passiva. Por exemplo, dizer “não arranjei tempo para treinar” implica que, se decidir, poderá arranjar esse tempo mais adiante.
Pelo contrário, dizer “não tive tempo para treinar” faz com que a falta de tempo pareça inevitável e externa - e dá a sensação de que poderá repetir-se, voltando a impedir a concretização dos seus objectivos de exercício.
Encontre o prazer no processo (e na sua resolução)
Outro motivo para tantas pessoas terem dificuldade em manter as resoluções de Ano Novo pode ser a ambição excessiva - ou a tendência para ignorar que alegria e prazer são combustíveis essenciais para a persistência.
Não basta ter um objectivo definido. Também é importante sentir satisfação durante o percurso e acreditar na própria capacidade de mudança. Por exemplo, alguém pode querer melhorar a condição física e treinar mais, mas, quando tenta ir ao ginásio, não tem confiança suficiente para se inscrever numa aula.
Sem um mínimo de diversão, é difícil cumprir uma resolução, mesmo quando o objectivo é genuinamente importante. Por isso, procure formas de tornar a meta mais agradável e lembre-se, de forma consistente, de que é capaz.
Uma estratégia prática é tornar a resolução mais “leve” à escala do dia-a-dia: escolher actividades de que realmente goste (caminhar, dançar, nadar), treinar com um amigo, definir objectivos intermédios realistas e celebrar pequenas vitórias. Estas escolhas não reduzem a ambição - aumentam a probabilidade de continuidade.
Também pode ajudar preparar o terreno para os inevitáveis deslizes: planear o que fará quando falhar um dia, uma semana ou um mês (por exemplo, retomar com uma versão mais pequena do plano, em vez de desistir por completo). Ter um “plano de reentrada” diminui o impacto emocional da quebra e encurta o tempo até ao recomeço.
A tendência de fazer resoluções de Ano Novo não é, por si só, negativa. Embora pareça um pouco paradoxal tentar iniciar hábitos virtuosos logo após uma noite de álcool e excessos alimentares, a investigação indica que podemos beneficiar do chamado efeito de “novo começo”: uma nova etapa no calendário pode funcionar como uma espécie de folha em branco para iniciar comportamentos melhores.
Mas não é obrigatório esperar que o calendário dê esse empurrão. Também pode escolher criar a sua própria resolução - talvez uma resolução do Dia dos Namorados ou da Páscoa - para reacender a motivação e avançar com os seus objectivos.
Janina Steinmetz, Professora de Marketing, Bayes Business School, City St George's, University of London
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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