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Investigador sobre horários de trabalho desafia Merz: Alemães trabalham mais do que nunca.

Mulher de negócios a olhar pela janela segurando gráfico colorido num escritório com laptop, caneca e televisão ligada.

Os políticos dizem que a Alemanha está a ficar preguiçosa.

Os dados mais recentes sobre horas trabalhadas mostram uma realidade bem diferente - e bastante incómoda para esse discurso.

Enquanto dirigentes conservadores avisam que escolhas “de estilo de vida” a tempo parcial põem em risco a prosperidade alemã, investigadores do trabalho apontam para máximos históricos de horas trabalhadas, estrangulamentos estruturais e um desfasamento profundo entre slogans políticos e o que de facto acontece no mercado de trabalho.

O choque: política vs. investigação sobre tempo de trabalho

Nos últimos meses, figuras de topo do bloco conservador alemão, a CDU e a CSU, têm repetido uma mensagem simples: é preciso trabalhar mais. No mesmo pacote, culpam o aumento do trabalho a tempo parcial, a subida das baixas médicas e ideias como a semana de quatro dias por travarem o crescimento e a competitividade.

A representante do Mittelstand da CDU, Gitta Connemann, defendeu o fim do direito legal ao trabalho a tempo parcial. O ministro-presidente da Baviera, Markus Söder, quer aumentar a semana padrão de tempo inteiro para 41 horas. E o chanceler Olaf Scholz avisou que o “equilíbrio entre vida profissional e pessoal e a semana de quatro dias” não garantem a prosperidade futura.

O investigador do mercado de trabalho Volker Hielscher, director do Instituto de Investigação Social e Economia Social (iso), em Saarbrücken, discorda frontalmente. Com base em duas décadas de dados, sustenta que o problema não é falta de ética de trabalho, mas sim um debate mal enquadrado e médias estatísticas que confundem mais do que esclarecem.

A ideia repetida em manchetes de que “a Alemanha trabalha pouco” desmorona-se quando se separam e analisam correctamente o trabalho a tempo inteiro e a tempo parcial.

Antes de discutir “mais horas”, vale a pena olhar para o pano de fundo que raramente entra nos discursos: o envelhecimento acelerado da Alemanha, as dificuldades de recrutamento em sectores essenciais e a crescente procura de flexibilidade por parte de trabalhadores e empresas. Numa economia madura, a questão central tende a ser como organizar o trabalho (e quem consegue participar), não apenas quantas horas constam no relógio.

Os alemães trabalham mesmo menos do que outros europeus?

Um dos argumentos mais usados no debate político é que os alemães registam menos horas do que trabalhadores de muitos outros países da União Europeia. Hielscher diz que esta afirmação depende, quase por completo, do que se está exactamente a medir.

Horas a tempo inteiro: a Alemanha no meio da tabela europeia

Quando a comparação se faz apenas entre trabalhadores a tempo inteiro na União Europeia, a Alemanha aparece muito perto da média europeia em horas semanais. Ou seja: um trabalhador alemão a tempo inteiro não trabalha “muito menos” do que colegas em França, Itália ou nos Países Baixos.

A diferença aparentemente dramática surge quando se misturam trabalhadores a tempo inteiro e a tempo parcial numa única média. Esse cálculo baixa o valor das “horas semanais médias” e alimenta a narrativa de que a Alemanha, no seu conjunto, reduziu o esforço laboral.

A história de que “todos trabalhamos pouco” é, em grande parte, uma miragem estatística causada por misturar horas de tempo inteiro e de tempo parcial num número indistinto.

O papel do tempo parcial: mais pessoas a trabalhar, não menos empenho

Desde que a Alemanha introduziu, em 2001, a Lei do Trabalho a Tempo Parcial e a Termo, aconteceu algo marcante:

  • O número de pessoas empregadas aumentou cerca de 15% até 2024.
  • O total de horas trabalhadas na economia cresceu pouco menos de 5%.

Isto significa que o emprego cresceu muito mais depressa do que o tempo total de trabalho. Uma parte grande desse aumento de emprego veio de postos a tempo parcial, sobretudo entre pessoas que antes nem sequer estavam empregadas.

Sem funções a tempo parcial, muitos destes trabalhadores - incluindo pais e mães, cuidadores e trabalhadores mais velhos - provavelmente não estariam no mercado de trabalho. Assim, embora as horas médias por trabalhador tenham descido, o total de horas na economia atingiu um máximo histórico em 2024.

Em termos agregados, a Alemanha está a trabalhar “mais do que nunca”, precisamente porque os formatos a tempo parcial trouxeram mais pessoas para o trabalho remunerado.

“Tempo parcial por estilo de vida” e a vida real na Alemanha

Políticos conservadores alertam frequentemente para o chamado “tempo parcial por estilo de vida” - uma etiqueta que sugere que as pessoas reduzem horas apenas por conforto, e não por necessidade. Investigadores são cépticos em relação a este enquadramento, tanto por razões factuais como por questões éticas.

Quantos estão, de facto, numa semana de quatro dias?

Dados de um inquérito a trabalhadores da Fundação Hans Böckler (2022) indicam que apenas cerca de 7% dos trabalhadores na Alemanha estão num modelo de semana de quatro dias. É muito longe do fenómeno de massa insinuado em alguns discursos e debates televisivos.

É evidente que algumas pessoas escolhem horários mais curtos por motivos pessoais. Mas a tentativa de separar razões “legítimas” (cuidar de crianças, apoiar familiares idosos) de razões “ilegítimas” (preferência por mais tempo livre) abre uma pergunta desconfortável: até onde deve o Estado interferir na gestão do tempo de cada pessoa?

A expressão “tempo parcial por estilo de vida” sugere que só algumas razões para querer mais tempo são válidas - e que as restantes precisam de correcção política.

O lado menos visível: quem quer trabalhar mais, mas não consegue (subemprego)

O debate público fixa-se em quem reduz horas. Muito menos visível está quem fica preso a horários curtos contra a sua vontade - o que os economistas chamam subemprego.

Trata-se de trabalhadores com contratos a tempo parcial que preferiam aumentar as horas, mas não têm essa possibilidade. Estimativas do Instituto Alemão de Investigação Económica (DIW) apontam para:

Grupo Percentagem afectada pelo subemprego
Mulheres em trabalho a tempo parcial Cerca de 15%
Homens em trabalho a tempo parcial Pouco menos de 10%

As causas vão desde falta de vagas em creches e respostas de cuidados continuados, até empresas que não oferecem mais horas por terem carteiras de encomendas fracas.

O que o tempo de trabalho significa para a produtividade

Os apelos a semanas mais longas assentam muitas vezes na ideia de que mais horas geram automaticamente mais produção e mais prosperidade. Economistas do trabalho consideram essa relação tudo menos linear.

Historicamente, reduções relevantes do tempo de trabalho - como a semana de 35 horas em partes da indústria transformadora alemã - não originaram perdas claras de produtividade. Em muitos casos, as empresas reorganizaram processos, investiram em tecnologia e acabaram por gerar mais valor por hora.

Em sectores como saúde, serviços pessoais e algumas áreas de ofícios especializados, a ligação entre horas e produção é mais directa: mais tempo de equipa pode significar mais doentes atendidos ou mais projectos concluídos. Já na indústria altamente automatizada, a tecnologia e o desenho dos processos tendem a pesar mais do que o número bruto de horas.

A produtividade é moldada por tecnologia, organização e competências; aumentar simplesmente o “botão das horas” raramente resolve problemas estruturais mais profundos.

Um ponto adicional que ganha relevância na Alemanha é a digitalização: quando sistemas informáticos, planeamento e logística falham, perdem-se horas em esperas, duplicação de registos e retrabalho. Nestes casos, a “falta de horas” é muitas vezes, na prática, falta de eficiência organizacional, e investir em processos pode render mais do que alongar a semana padrão.

Dia de oito horas, flexibilidade e riscos para a saúde

Outra proposta polémica passa por aliviar a regra clássica do dia de oito horas e concentrar-se apenas num limite máximo semanal. As empresas ganhariam liberdade para marcar dias mais longos quando necessário, desde que respeitassem o tecto semanal.

A investigação em saúde ocupacional alerta para os riscos desta via. Os dados mostram que a taxa de acidentes sobe de forma acentuada quando os turnos ultrapassam cerca de oito horas. A fadiga aumenta e o tempo de recuperação necessário também.

A lei alemã actual já permite dias de trabalho até dez horas, desde que depois haja compensação com dias mais curtos. Ainda assim, a maioria das empresas continua a seguir, em grande medida, o padrão tradicional das oito horas - um sinal de que dias muito longos nem sempre são eficientes no terreno.

Alguns estudos encontram, inclusive, produtividade horária mais elevada em funções a tempo parcial: horários mais curtos podem traduzir-se em maior foco e menos erros durante o tempo efectivo de trabalho.

Baixa médica: mais registo, não necessariamente mais doença

A par das críticas sobre o tempo de trabalho, discursos políticos apontam cada vez mais para um aumento das baixas médicas. Os dados mostram mesmo uma subida: durante anos, o absentismo por doença rondou 10–12% do tempo de trabalho; hoje aproxima-se dos 15%.

Hielscher sublinha uma mudança decisiva que raramente é referida: desde 2022, a Alemanha passou a usar um sistema totalmente electrónico de certificados de incapacidade. A doença passou a ser registada de forma muito mais completa do que no regime em papel - e também com maior exaustividade do que em muitos outros países europeus.

A Alemanha continua apenas por volta do sétimo lugar na Europa em dias de baixa; não é a excepção que alguns críticos sugerem.

O peso principal vem das doenças de longa duração, sobretudo condições de saúde mental, que aumentaram significativamente nas últimas duas décadas. Ausências curtas (um a três dias) são comuns, mas representam apenas uma pequena fatia do total de dias perdidos. A narrativa sobre “abusos de baixa” às segundas-feiras atinge uma parte menor do problema, e não o factor dominante.

Quando mais horas podem sair caro

Semanas padrão mais longas fariam necessariamente subir as baixas? Os investigadores evitam traçar uma relação mecânica, mas apontam riscos claros. Forçar mais horas - ou empurrar trabalhadores a tempo parcial para tempo inteiro contra a sua vontade - pode corroer motivação, saúde mental e desempenho ao longo do tempo.

Estes efeitos tendem a aparecer devagar. No início, muita gente “aguenta”, por medo de perder o emprego ou por pressão social. Ao fim de anos, porém, acumulam-se stress, esgotamento e desinvestimento - exactamente o contrário do que líderes empresariais e políticos dizem procurar.

O que poderia, de facto, aliviar a falta de trabalhadores na Alemanha?

A Alemanha enfrenta escassez aguda de pessoal em sectores específicos, sobretudo saúde, cuidados a idosos e algumas áreas técnicas. No entanto, apelos genéricos a “mais horas para todos” falham ao não captar a natureza concreta desses défices.

Investigadores e várias associações empresariais apontam, em vez disso, dois instrumentos mais promissores:

  • Melhorar condições nos sectores com falta de pessoal, incluindo remuneração, rácios de equipa e equilíbrio entre vida profissional e pessoal.
  • Integrar mais depressa e com mais eficácia pessoas já no país mas ainda fora do emprego pleno - em particular migrantes, refugiados e pessoas que regressam após períodos de cuidados ou doença.

A atracção de trabalhadores qualificados do estrangeiro depende também de como o mercado de trabalho interno é percepcionado: flexível, previsível e humano. Um modelo rígido de “trabalhem mais ou ficam para trás” é mais difícil de vender do que um sistema com opções reais e respeito pelo tempo pessoal.

Porque muitos trabalhadores preferem mais tempo a mais dinheiro

Acordos salariais recentes em vários sectores alemães incluíram opções para os trabalhadores trocarem parte dos aumentos por mais dias livres. Em muitas empresas, um número elevado escolheu tempo em vez de dinheiro.

Inquéritos mostram de forma consistente que homens e mulheres gostariam de trabalhar um pouco menos, mesmo aceitando um rendimento inferior. Para uma parte das famílias de rendimento médio, uma hora extra com filhos, descanso ou hobbies vale mais do que mais uma linha no recibo de vencimento.

Para um número crescente de pessoas, o tempo tornou-se um elemento central da prosperidade pessoal - não apenas um custo a comprimir.

Conceitos-chave e cenários práticos na Alemanha (tempo parcial e subemprego)

Dois conceitos estão no centro deste debate e são frequentemente confundidos:

  • Trabalho a tempo parcial: qualquer contrato com menos horas do que o padrão de tempo inteiro naquele local. Pode ser voluntário ou involuntário.
  • Subemprego: trabalhadores a tempo parcial que querem mais horas, mas não conseguem obtê-las, por política da empresa, falta de resposta social (creches/cuidados) ou procura fraca.

Pense num hospital típico na Alemanha: faltam enfermeiros, os turnos prolongam-se e as taxas de esgotamento são elevadas. Exigir que o pessoal existente aumente ainda mais as horas semanais pode empurrar mais profissionais para fora da profissão. Pelo contrário, oferecer esquemas flexíveis a tempo parcial e pausas de carreira pode manter enfermeiros experientes no sistema durante mais anos, estabilizando a força de trabalho.

Ou considere uma empresa média com queda de encomendas. Aumentar a semana de trabalho não cria procura nova para os seus produtos. Apenas distribui o trabalho disponível por mais horas, podendo pressionar salários ou levar trabalhadores marginais a sair.

As escolhas políticas sobre o tempo de trabalho têm efeitos cumulativos: determinam quem consegue participar no trabalho remunerado, como as pessoas mantêm a saúde e quão atractivo um país se torna para talento escasso. A disputa actual na Alemanha sobre horas não é, no essencial, sobre preguiça - é sobre como repartir trabalho, tempo e oportunidades numa economia envelhecida e altamente desenvolvida.

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