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Estrutura misteriosa em Marte assemelha-se a uma antiga pirâmide egípcia.

Astronauta em deserto com pirâmide ao fundo, tirando foto com tablet.

Marte pode parecer, à primeira vista, um mundo silencioso e sem grandes surpresas. No entanto, o planeta vermelho - poeirento e oxidado - é palco de processos geológicos que, de vez em quando, criam formas capazes de nos prender o olhar.

Grande parte dessas “histórias” marcianas está escrita nas rochas. E rochas é coisa que não falta em Marte: ao longo de eras, foram sujeitas a erosão, fraturas e alterações superficiais que, ocasionalmente, produzem silhuetas que lembram estruturas artificiais ou até algo biológico… sobretudo quando olhamos com atenção e alguma imaginação.

A analogia é quase a do velho cenário dos macacos e das máquinas de escrever: não se espera um Shakespeare, mas, uma vez por outra, surge uma combinação de linhas e volumes suficientemente “convincente” para enganar até quem está habituado a identificar padrões no mundo natural.

O “Tetraedro de Candor” em Candor Chasma (Marte)

A mais recente ilusão marciana a circular em força em sites sensacionalistas e redes sociais gira em torno de uma formação chamativa, observada pela primeira vez no início dos anos 2000, que lembra uma pirâmide de três faces numa depressão varrida pelo vento chamada Candor Chasma.

A narrativa ganhou tração depois de ter sido partilhada na plataforma X pelo realizador Brian Cory Dobbs, que já tinha promovido anteriormente a ideia de que imagens da NASA conteriam indícios de estruturas artificiais em Marte. A publicação espalhou-se rapidamente, acompanhada por recortes (imagens cortadas e ampliadas) da formação, replicados em várias redes sociais e em páginas de tablóide.

Convém separar o que é factual do que é interpretação: as imagens são, de facto, dados reais da NASA, recolhidos por orbitadores que fotografaram a região pela primeira vez em 2001.

De onde veio a “descoberta” e como foi documentada

O primeiro registo bem documentado da identificação desta forma “piramidal” remonta a 2002, quando o investigador independente Wilmer Faust chamou a atenção para uma característica invulgar numa imagem do Mars Global Surveyor (MGS), identificada como E06-00269.

Surgiram mais tarde alegações de que a estrutura teria sido notada ainda antes, mas essas versões variaram ao longo do tempo e não se mantiveram consistentes. Ainda assim, uma coisa permaneceu: o chamado Tetraedro de Candor era - e continua a ser - um exemplo particularmente apelativo de como a geologia pode gerar formas com aparência “arquitectónica”.

O que mostram as imagens de alta resolução da HiRISE (NASA)

Após a referência inicial, outros orbitadores voltaram a registar a zona, com destaque para a câmara HiRISE, a bordo do Mars Reconnaissance Orbiter (Orbitador de Reconhecimento de Marte) da NASA.

As imagens da HiRISE impressionam pela nitidez. Mas há um detalhe que muda a leitura do fenómeno: quando se reduz o zoom e se observa o contexto do relevo em redor do “tetraedro”, a formação deixa de parecer tão anómala e passa a encaixar no que é, muito provavelmente, a sua explicação mais simples - um monte ligeiramente irregular, moldado pelas mesmas forças erosivas que esculpiram as escarpas e os desfiladeiros circundantes.

Candor Chasma e as “protuberâncias de relevo positivo”

Candor Chasma integra um dos maiores sistemas de canhões de Marte, trabalhado ao longo de milhares de milhões de anos por uma combinação de água (no passado), deslizamentos de terreno, vento e possivelmente até alguma actividade tectónica.

A área está também pontilhada por formações a que cientistas chamaram “protuberâncias de relevo positivo”: estruturas rochosas que estiveram enterradas e que, por serem mais resistentes do que a rocha envolvente, acabaram por ficar expostas quando a erosão removeu o material à volta. O resultado são “ilhas” de rocha mais dura, destacadas do terreno adjacente.

Estas protuberâncias não são pequenas. Podem atingir até 1 quilómetro de diâmetro e dezenas de metros de altura. O Tetraedro de Candor terá cerca de 290 metros de diâmetro e uma altura aproximada de 145 metros, um pouco acima da altura típica destas estruturas - mas ainda assim plenamente compatível com esta paisagem mais ampla de camadas rochosas a serem “recortadas” em colinas isoladas.

Pirâmides naturais: Marte não é caso único

Mesmo na Terra existem formas naturais com perfil piramidal. Na Colômbia, por exemplo, a montanha Cerro Tusa eleva-se 457 metros acima do terreno circundante e apresenta uma base com cerca de 1,8 quilómetros. A província chinesa de Guizhou também é conhecida por montanhas com contornos semelhantes a pirâmides.

O paralelismo ajuda a enquadrar o “mistério” marciano: formas triangulares ou de arestas marcadas podem surgir sem intervenção humana, bastando uma combinação específica de estratigrafia (camadas), fracturação e erosão.

Ondulações eólicas e imperfeições geométricas

Quando se observa atentamente a imagem da suposta pirâmide, nota-se que a formação está inserida num campo de ondulações eólicas - cristas onduladas esculpidas por ventos intensos - o que sugere erosão activa e contínua no local.

Também é possível ver que as cristas do monte não são geometricamente perfeitas, como se esperaria de uma estrutura artificial: são irregulares, com “caroços” e descontinuidades. Além disso, as três faces aparentes não têm exactamente a mesma dimensão, reforçando a leitura de um objecto natural esculpido ao acaso, e não de uma construção deliberada.

Pareidolia: o cérebro à caça de padrões

O reconhecimento de padrões humano é extremamente eficaz - e, por isso mesmo, propenso a falsos positivos. Temos tendência a procurar significado em informação que não o tem, sobretudo quando algo lembra um rosto, uma figura humana ou uma estrutura “organizada”. Formas geométricas, como triângulos e pirâmides, também captam facilmente a nossa atenção.

É aqui que entra a pareidolia: a inclinação para “ver” intencionalidade onde existe apenas coincidência visual. Em imagens planetárias, em que sombras e ângulos de iluminação podem alterar drasticamente a percepção do relevo, esse efeito torna-se ainda mais forte.

Como confirmar o contexto: dados públicos e leitura geológica

Um ponto frequentemente ignorado nas partilhas virais é que muitos dos registos orbitais são públicos e podem ser consultados com contexto: é possível comparar diferentes passagens, iluminações e resoluções, evitando conclusões baseadas num único recorte. Ver a área em mapas mais abrangentes - e não apenas a formação isolada - é muitas vezes suficiente para perceber como ela se integra no terreno.

Além disso, a leitura geológica beneficia de pistas simples: continuidade de camadas, padrões de erosão consistentes na região, e presença de campos de dunas e ondulações eólicas que indicam processos actuais. Quando estes sinais convergem, a hipótese “natural” tende a ser a mais robusta.

Marte já é extraordinário sem adereços

Marte não precisa de ser “enfeitado” por interpretações forçadas para ser fascinante. A sua geologia e o seu clima produziram paisagens que, ao mesmo tempo, nos parecem estranhamente familiares e radicalmente diferentes de qualquer coisa que se observe na Terra.

E graças a tecnologia como o Mars Reconnaissance Orbiter e à precisão da HiRISE, podemos explorar esses cenários com detalhe extraordinário - imaginando como seria estar junto a falésias imponentes e terrenos ásperos de Marte, onde, durante milhares de milhões de anos, o som dominante terá sido apenas o uivo do vento.

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