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Imagem impressionante mostra o coração da nossa galáxia como nunca antes.

Homem de costas observa grande ecrã digital com imagem colorida de galáxia espiral numa sala de controlo moderna.

Uma equipa internacional de astrónomos registou a região central da Via Láctea com um nível de pormenor nunca antes alcançado.

A nova imagem abrange uma zona com cerca de 650 anos‑luz (aproximadamente 200 parsecs) de diâmetro e expõe uma malha intrincada de filamentos formados por nuvens densas de gás cósmico. Este vasto reservatório é conhecido como Zona Molecular Central (CMZ).

Trata‑se da maior imagem alguma vez obtida com o Atacama Large Millimeter/submillimeter Array (ALMA). O conjunto de dados resultante permitirá aos astrónomos investigar em profundidade a química desta região e perceber melhor como as estrelas se formam e evoluem no ambiente mais extremo da nossa galáxia.

ALMA CMZ Exploration Survey (ACES) no Centro Galáctico

O trabalho que levou a este conjunto de dados foi desenvolvido por investigadores do ALMA CMZ Exploration Survey (ACES), uma colaboração científica com mais de 160 cientistas de mais de 70 instituições distribuídas pela Europa, Américas do Norte e do Sul, Ásia e Austrália.

Os resultados foram apresentados numa série de artigos publicados nas Notícias Mensais da Sociedade Astronómica Real.

O ACES é o maior levantamento deste género realizado com a rede ALMA na direcção do Centro Galáctico, produzindo um mosaico de imagens de rádio que cobre uma porção do céu nocturno equivalente a três Luas cheias alinhadas lado a lado.

O projecto foi iniciado e coordenado pelo investigador principal Steven Longmore, com co‑investigadores principais de cada instituição participante. Entre eles encontra‑se Ashley Barnes, astrónoma do European Southern Observatory (ESO), a entidade que supervisiona o ALMA.

A Via Láctea revelada: gás frio na Zona Molecular Central (CMZ)

Num comunicado de imprensa do ESO, Barnes descreveu assim o que as observações mostram:

“É um lugar de extremos, invisível aos nossos olhos, mas agora revelado com um detalhe extraordinário. As observações oferecem uma visão única do gás frio - a matéria‑prima a partir da qual as estrelas se formam - dentro da chamada Zona Molecular Central (CMZ) da nossa galáxia.”

“É a primeira vez que o gás frio em toda esta região é explorado com este nível de detalhe. É o único núcleo galáctico suficientemente próximo da Terra para o estudarmos com tamanha precisão. O conjunto de dados revela a CMZ como nunca, desde estruturas de gás com dezenas de anos‑luz até pequenas nuvens de gás em torno de estrelas individuais.”

A imagem evidencia gás molecular frio a deslocar‑se ao longo de filamentos que convergem para aglomerados densos - locais onde novas estrelas acabam por nascer. Embora este mecanismo seja relativamente bem compreendido no disco exterior da Via Láctea, as condições no centro galáctico são muito mais intensas e difíceis de comparar.

Uma das razões para este avanço é que as observações em comprimentos de onda milimétricos e submilimétricos conseguem atravessar a poeira que bloqueia a luz visível. Assim, o ALMA permite mapear directamente o gás frio e os seus traçadores químicos, tornando possível seguir os percursos de alimentação dos filamentos e identificar onde o material se acumula antes do início da formação estelar.

Formação estelar extrema e evolução das galáxias

Como as estrelas se formam e evoluem sob estas condições extremas continua a ser uma incógnita para a comunidade científica. Com este novo conjunto de dados, os astrónomos pretendem testar se as teorias actuais de formação estelar se mantêm válidas em ambientes tão exigentes.

Longmore resumiu a importância do local:

“A CMZ alberga algumas das estrelas mais massivas conhecidas na nossa galáxia, muitas das quais vivem depressa e morrem cedo, terminando as suas vidas em poderosas explosões de supernova e até em hipernovas.”

“Ao estudarmos como nascem estrelas na CMZ, conseguimos também obter uma visão mais clara de como as galáxias cresceram e evoluíram. Acreditamos que esta região partilha muitas características com galáxias do Universo primordial, onde as estrelas se formavam em ambientes caóticos e extremos.”

Para além da formação estelar, a riqueza química observada na Zona Molecular Central (CMZ) cria uma oportunidade rara: comparar, molécula a molécula, como o meio interestelar reage a densidades elevadas, campos de radiação intensos e dinâmicas turbulentas. Esse retrato detalhado ajuda a ligar o que vemos hoje no Centro Galáctico aos processos que terão sido comuns em épocas muito mais antigas do cosmos.

Surpresas no mosaico e o que vem a seguir

Apesar de a equipa esperar imagens muito detalhadas, o resultado final do mosaico surpreendeu pela complexidade e pela abundância de estruturas reveladas.

É provável que este levantamento seja complementado por observações ainda mais finas quando o ALMA for actualizado e quando os telescópios da próxima geração entrarem em funcionamento.

Segundo Barnes:

“A futura Actualização de Sensibilidade de Banda Larga do ALMA, juntamente com o Telescópio Extremamente Grande do ESO, permitirá em breve aprofundar ainda mais esta região - resolvendo estruturas mais pequenas, seguindo uma química mais complexa e explorando a interacção entre estrelas, gás e buracos negros com uma nitidez sem precedentes. Em muitos aspectos, isto é apenas o começo.”

Este artigo foi originalmente publicado pelo Universo Hoje. Leia o artigo original.

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