O Pacote Automóvel da Comissão Europeia (CE) não mexeu apenas nas metas aplicáveis aos automóveis ligeiros de passageiros. Ao admitir que, no curto prazo, existem entraves estruturais à adoção de soluções elétricas nos veículos comerciais ligeiros e nos veículos pesados, a União Europeia (UE) avançou com ajustes específicos para estes dois segmentos.
Veículos comerciais ligeiros: metas de emissões revistas no Pacote Automóvel da Comissão Europeia
No caso dos veículos comerciais ligeiros, a meta de redução de emissões de dióxido de carbono (CO₂) para 2030 foi revista em baixa: passa de 50% para 40%. O setor vinha a sublinhar que o ritmo de eletrificação ainda não acompanha o nível necessário para cumprir a fasquia anterior.
De acordo com dados citados pela ACEA, nos primeiros nove meses do ano apenas 10,2% do mercado de comerciais ligeiros na UE era 100% elétrico, quando seriam precisos 15% a 20% para tornar realista o objetivo anterior.
A associação acrescenta que a transição é especialmente exigente devido a fatores próprios deste tipo de veículo: necessidade de operação contínua (24/7), limitações de carga útil e a grande diversidade de configurações e utilizações. Na leitura da ACEA, estes requisitos tornam mais difícil a passagem rápida para motorizações totalmente elétricas.
Além disso, o cumprimento das metas de emissões depende, em grande medida, de condições externas à indústria: disponibilidade de infraestrutura de carregamento adequada para frotas (incluindo carregamento rápido em zonas logísticas), reforço da rede elétrica e condições de acesso a energia a preços competitivos. Sem estes elementos, o custo operacional e a flexibilidade de utilização podem não ser suficientes para acelerar a adoção.
Também o lado económico pesa nas decisões das empresas, uma vez que muitas frotas são geridas com base no custo total de utilização e em ciclos de renovação rígidos. Medidas de apoio previsíveis - como incentivos à aquisição, fiscalidade alinhada com a descarbonização e soluções de financiamento - tendem a ter impacto direto na velocidade a que os comerciais ligeiros elétricos entram no mercado.
E os pesados?
Para os veículos pesados, a Comissão Europeia propôs igualmente mudanças nas regras de CO₂ com o objetivo de tornar mais exequível o cumprimento das metas de 2030. A alteração central passa por permitir que os construtores acumulem créditos de emissões de forma mais favorável nos anos que antecedem 2030.
Até aqui, só era possível gerar créditos quando a empresa ficasse abaixo de uma linha média global de redução de emissões, calculada ano a ano. Com a proposta agora apresentada, passa a ser suficiente que o fabricante fique abaixo da sua própria meta anual, mesmo que ainda não tenha alcançado a média global exigida.
Os números atuais mostram a dimensão do desafio: nos primeiros nove meses do ano, apenas 3,8% dos pesados vendidos na UE eram 100% elétricos, enquanto os Diesel representavam 93,5% das vendas (fonte: ACEA). Mantêm-se, contudo, as metas para veículos pesados com mais de 16 toneladas, com uma redução prevista de 45% nas emissões a partir de 2030.
A Comissão defende que a revisão proposta preserva a ambição climática europeia e, ao mesmo tempo, aumenta a previsibilidade para quem investe ao longo da cadeia de valor, reforçando a competitividade do setor automóvel europeu.
A proposta detalhada seguirá para apreciação do Parlamento Europeu e do Conselho Europeu ao longo do próximo ano, podendo ainda sofrer alterações antes de ser fechada em definitivo.
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