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O futuro da IA e os lucros que gera dependem de trabalho mal pago; a precariedade do setor nos EUA destacou-se após a demissão de 5.000 pessoas.

Jovem sentado à mesa com computador portátil, parecendo cansado, e outra pessoa a usar telemóvel com gráficos ao fundo.

Enquanto muitos directores-executivos vendem a ideia de um amanhã radioso com inteligência artificial (IA), há um outro lado quase invisível: um contingente de trabalhadores que enfrenta despedimentos súbitos, salários em queda e contratos frágeis.

Por trás de curvas optimistas de crescimento e de anúncios de investimentos de milhares de milhões, milhares de pessoas vivem uma rotina bem menos glamorosa: ritmos intensos, projectos temporários que podem terminar de um dia para o outro e rendimento instável, apesar de serem elas a sustentar, no terreno, a tecnologia que alimenta esta nova corrida económica.

Milhares de milhões em crescimento, despedimentos em massa

A indústria da inteligência artificial passou a ser sinónimo de capital fresco. Empresas cotadas, empresas emergentes e gigantes tecnológicos apostam o seu futuro na promessa de algoritmos capazes de aumentar a produtividade, reduzir custos e abrir mercados inteiros.

De acordo com números citados pelo sítio Futurism, os negócios ligados à IA terão representado cerca de 92% do crescimento do PIB dos Estados Unidos no primeiro semestre de 2025. Por outras palavras, quase todo o impulso recente da economia norte-americana terá vindo, directa ou indirectamente, desta área.

Em paralelo, o mundo do trabalho está a mexer-se no sentido inverso. A própria Amazon - que beneficia da automação e da escala - terá eliminado cerca de 14 mil postos de trabalho numa única vaga, apesar de apresentar resultados robustos. E Outubro de 2025 ficou registado como um dos meses mais severos em despedimentos no sector tecnológico desde 2003.

O brilho financeiro da IA convive com um subsolo de incerteza: recordes no topo, insegurança permanente na base.

Uma parte importante deste paradoxo tem um motor claro: a externalização em massa das tarefas que alimentam modelos de IA. Em vez de equipas internas com estabilidade, uma fatia grande do trabalho é empurrada para plataformas de trabalho a pedido, pagas à hora ou por tarefa, com pouca ou nenhuma protecção laboral.

Trabalhadores invisíveis da IA e o trabalho de anotação de dados

Para que um sistema de IA pareça “inteligente”, há trabalho humano antes - e muito. É feito por pessoas espalhadas pelo mundo a classificar imagens, rever respostas, avaliar a qualidade de textos, anotar dados sensíveis e assinalar conteúdo violento ou inadequado para ensinar a máquina a evitá-lo.

Estas actividades aparecem sob vários rótulos: rotulagem de dados, anotação, moderação, avaliação de conteúdo. Frequentemente, são desempenhadas por trabalhadores independentes ou por pessoas recrutadas através de agências subcontratadas. A remuneração costuma oscilar consoante a tarefa e o país.

  • Baixa visibilidade: quase nunca surgem em relatórios anuais nem em apresentações a investidores.
  • Pagamento volátil: os valores à hora mudam com pouca transparência.
  • Zero estabilidade: projectos arrancam e param sem aviso consistente.
  • Pressão constante: métricas rígidas de produtividade e risco de bloqueio por “baixo desempenho”.

Apesar de serem essenciais, estes trabalhadores raramente entram no debate público sobre o futuro da IA. Na prática, são tratados como peças facilmente substituíveis numa espécie de linha de montagem digital.

Há ainda um aspecto muitas vezes ignorado: parte da moderação e da avaliação de conteúdo implica contacto repetido com material perturbador. Sem apoio psicológico estruturado, pausas adequadas e regras claras de exposição, o risco de desgaste e de impactos na saúde mental cresce - o que agrava a rotatividade e a perda de qualidade no próprio processo.

Mercor: 5.000 pessoas desligadas de um dia para o outro

Um dos episódios recentes que mais chamou a atenção nos Estados Unidos envolve a Mercor, empresa parceira de nomes como a Meta e a OpenAI. A Mercor coordenava um projecto de grande escala, baptizado de Musen, que envolvia mais de 5.000 trabalhadores remotos.

Segundo relatos publicados pelo Business Insider, muitos participantes receberam indicações de que o trabalho se prolongaria até ao final do ano. Alguns reorganizaram o orçamento familiar e compromissos financeiros contando com essa entrada mensal.

Ainda assim, o projecto foi encerrado de forma abrupta. Sem período de transição, sem garantia de recolocação e com informação contraditória, milhares de pessoas ficaram sem remuneração no espaço de horas.

Pouco depois, a Mercor avançou com um novo projecto, chamado Nova. As tarefas mantinham-se praticamente iguais: avaliar respostas de modelos de IA, identificar falhas e sugerir melhorias. O que mudou de forma clara foi o pagamento.

Os relatos sugerem que o trabalho permaneceu quase idêntico, mas o valor à hora terá baixado cerca de cinco dólares (aprox. 4,5 €) de um projecto para o outro.

Para muitos, a mensagem foi simples: aceita-se menos ou volta-se para a fila. A desigualdade de poder entre plataformas e trabalhadores independentes deixa pouco espaço para negociação.

A lógica das “missões descartáveis”

O caso da Mercor não parece ser uma excepção. Plataformas que prestam serviços a empresas de IA têm vindo a normalizar um padrão: projectos curtos, sem compromisso de continuidade e com margem para reduzir tarifas a qualquer momento.

Nalgumas situações, equipas inteiras são desfeitas e substituídas por grupos mais pequenos e especializados (mais caros), enquanto o trabalho repetitivo passa para uma multidão global com rendimentos baixos. O resultado é uma descida do custo médio sem grande impacto nas margens das empresas que contratam.

Para quem permanece activo nestes circuitos, a pressão tende a aumentar. As horas estendem-se, os objectivos sobem e a ameaça de ficar sem tarefas paira sobre cada atraso ou erro. Muitos acabam por se resignar: aceitam as regras porque não encontram alternativas de emprego formal nas suas regiões.

Outra fragilidade frequente é a falta de mecanismos de recurso. Bloqueios de conta, penalizações por métricas e reprovações de tarefas surgem, por vezes, sem explicação compreensível - o que torna a precarização digital ainda mais dura, porque o “emprego” pode desaparecer por decisão automática e sem contraditório.

O discurso de utopia não combina com a realidade do chão de fábrica digital

Enquanto a precariedade se alarga, líderes de grandes tecnológicas continuam a sustentar uma narrativa de optimismo com cautelas. Satya Nadella, director-executivo da Microsoft, tem defendido que a IA pode elevar a qualidade de vida à escala global, desde que as decisões críticas permaneçam sob controlo humano. Sam Altman, à frente da OpenAI, também descreve avanços “espectaculares”, ainda que acompanhados de riscos.

A história contada por estes discursos assenta numa “utopia pragmática”: máquinas a absorver o trabalho pesado, pessoas concentradas em tarefas criativas e mais tempo livre para todos. No papel, soa atractivo.

No entanto, na prática, a promessa continua assente num pilar invisível: trabalho humano com remuneração baixa. A automação está na montra, mas o funcionamento diário das ferramentas depende de muita gente a apagar fogos, corrigir erros dos modelos e ajustar conteúdos para respeitar políticas de segurança.

Com regras de contratação frouxas, parte do progresso da IA assenta num terreno social instável, sujeito a falhas recorrentes.

O que esta transformação revela sobre o futuro do trabalho

A forma como a IA está a ser construída funciona, na prática, como um ensaio do que pode acontecer noutros sectores. Se este modelo se consolidar, tornam-se mais prováveis vários cenários:

Tendência O que significa na prática
Fragmentação de tarefas Em vez de um emprego fixo, a pessoa vive de microtrabalhos, nem sempre contínuos.
Rendimento instável Os ganhos mensais oscilam muito, dificultando o planeamento financeiro mais básico.
Baixa protecção Sem vínculo formal, torna-se mais difícil aceder a benefícios como subsídio de desemprego ou cuidados de saúde.
Competição global Trabalhadores em países com custo de vida mais baixo pressionam salários para baixo nos mercados centrais.

Este desenho reforça um sistema em que poucas empresas concentram tecnologia, dados e capital, enquanto distribuem tarefas “brutas” por uma rede global de prestadores com fraca capacidade de negociação.

Riscos, brechas e possíveis alternativas

Se esta lógica avançar sem travões, o risco não é apenas social. A qualidade da própria IA pode degradar-se. Trabalhadores cansados, mal pagos e inseguros tendem a errar mais, a aceitar tarefas sem tempo suficiente de análise e a privilegiar quantidade em detrimento de rigor.

Para investidores e empresas, isso traduz-se em modelos menos fiáveis, mais enviesamentos incorporados e maior probabilidade de crises reputacionais associadas a conteúdos tóxicos, discriminatórios ou simplesmente incorrectos. O que hoje parece poupança pode tornar-se um custo elevado a médio prazo.

Entre as alternativas discutidas em meios académicos, políticos e sindicais surgem: certificações de boas práticas para plataformas, exigência de transparência na remuneração, criação de pisos mínimos por tarefa, incentivos fiscais condicionados a condições de trabalho e contratos híbridos que combinem flexibilidade com benefícios básicos.

Na Europa, a pressão regulatória pode ganhar peso, seja por via de regras sobre transparência e responsabilidade em sistemas de inteligência artificial, seja pela crescente atenção a direitos laborais em plataformas. Se a contratação continuar opaca, a confiança pública na tecnologia pode tornar-se um factor económico - e não apenas ético.

Conceitos que ajudam a entender este cenário

Alguns termos ajudam a ler o momento actual:

  • Trabalho de anotação de dados: processo de rotular, marcar ou comentar informação (texto, imagem, áudio) para que modelos de IA aprendam padrões.
  • Plataformas de microtarefas: serviços que dividem projectos grandes em actividades pequenas pagas por tarefa, muitas vezes por montantes muito baixos.
  • Precarização digital: combinação de tecnologia com contratos frágeis, salários reduzidos e ausência de direitos, frequentemente mascarada por expressões como “flexibilidade” ou “oportunidade global”.

Nos próximos anos, é plausível que a automação continue a acelerar, ao mesmo tempo que crescem disputas regulatórias e exigências de transparência. Se governos apertarem a fiscalização e se consumidores começarem a valorizar a origem social da tecnologia que utilizam, as empresas poderão ser empurradas para modelos de contratação menos frágeis. Caso contrário, a economia de bastidores tende a aprofundar-se - e a promessa de um futuro brilhante continuará a ser sustentada por quem trabalha no escuro.

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