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Crescer nos anos 60/70: a habilidade de vida que muitos aprenderam naturalmente e que hoje precisamos treinar.

Pessoa sentada numa cadeira junto à janela segurando uma chávena fumegante, com uma fotografia e areia na ampulheta na janela

Num terça-feira cinzenta, algures entre levar as crianças à escola e mais uma videoconferência, pega no telemóvel “só para confirmar uma coisa” e, quando dá por si, já deslizou… e deslizou… e desapareceram 40 minutos. O café arrefeceu. Os ombros estão tensos. E, apesar de ter estado “ocupado”, fica com uma sensação estranha de vazio.

Há quem tenha crescido com três canais de televisão, um telefone fixo no móvel do corredor e longos períodos em que, aparentemente, não acontecia “nada”. Esperava-se. Faziam-se filas. Olhava-se pela janela do comboio.

Aquilo que, na altura, parecia apenas tédio estava, sem se perceber, a fortalecer um músculo mental que hoje estamos a perder. Uma competência que nunca chegou a ter nome, porque era simplesmente a vida como ela era.

A competência que toda a gente tinha… porque não havia alternativa

Crescer nos anos 60 e 70 era viver com intervalos: intervalos no entretenimento, na informação, no contacto. Esperava-se uma semana pelo próximo programa musical de êxitos, meses por uma carta de um familiar no estrangeiro, uma tarde inteira para ver se a canção preferida aparecia, talvez, na rádio.

Dentro desses espaços vazios, as crianças aprendiam a ficar com os próprios pensamentos. Rabiscavam nas margens dos cadernos, repetiam discussões na cabeça, olhavam para o tecto, inventavam outra vida possível. Ninguém lhe chamava mindfulness. Era apenas uma noite de terça-feira num sofá castanho.

Esse talento discreto - conseguir ficar com a própria mente sem correr imediatamente para mais estímulos - é aquilo a que hoje chamamos atenção, presença e até regulação emocional. Eles aprenderam por acidente. Nós, muitas vezes, temos de o pôr na agenda.

Se perguntar a alguém que era adolescente em 1973 o que fazia num domingo de chuva, é provável que oiça uma resposta do género: “Nada… e tudo.” Deitavam-se na cama a ouvir um álbum inteiro, lado A e lado B, por ordem. Sem saltar faixas, sem listas infinitas, sem alertas a interromper.

Ou ficavam na rua à espera de quem aparecesse. Nada de encontros combinados ao minuto: era estar, esperar e ver. Se não viesse ninguém, caminhava-se, chutava-se uma lata, falava-se sozinho um pouco. Tornava-se normal fazer companhia a si próprio.

Havia menos distracções, sim, mas também havia menos saídas rápidas para fugir ao desconforto. Não existia uma mensagem instantânea para evitar um silêncio embaraçoso. Não havia uma “linha” interminável de conteúdos para engolir a ansiedade. Hoje, os dados mostram a redução da capacidade de concentração sob estímulos digitais constantes; e, ao mesmo tempo, aquele campo de treino pouco glamoroso - tempo quieto e por preencher - está a desaparecer.

O que parecia “preguiça” ou “não fazer nada” era, na verdade, treino mental cruzado. Quando se é obrigado a esperar, o cérebro aprende a divagar de forma saudável: vagueia, volta atrás, resolve coisas em segundo plano.

Em Portugal, isto ainda se percebe em pequenos rituais que resistem: a fila na pastelaria, os minutos numa paragem de autocarro, a espera num corredor de um serviço público. A diferença é que, hoje, a tentação de preencher cada segundo com ecrã está sempre no bolso - e a oportunidade de treinar esse músculo passa despercebida.

A rede de modo padrão, a divagação e a reflexão silenciosa

A psicologia e a neurociência chamam a isto rede de modo padrão: a equipa de bastidores do cérebro que entra em acção quando ficamos a olhar pela janela ou quando esperamos na fila sem telemóvel. Para quem viveu nos anos 60 e 70, esse estado aparecia muitas vezes ao longo do dia, sem qualquer esforço.

Agora, tendemos a chamar-lhe daydreaming (devaneio) ou reflexão silenciosa e a empacotá-lo em livros de autoajuda e aplicações de meditação. Os nossos pais recebiam-no “de borla” em cada viagem de autocarro e em cada refeição longa, ligeiramente aborrecida, em que era preciso ficar sentado a ouvir adultos a falar de prestações da casa, contas e trabalho.

E há um pormenor importante: estes momentos não serviam para “otimizar” nada. Eles existiam, ponto final. É precisamente essa falta de objectivo que os tornava tão restauradores.

Como treinar o músculo da espera com micro-intervalos (sem dramatizar)

Se cresceu com notificações em vez de grandes silêncios, ainda assim pode fortalecer o mesmo músculo. A regra é simples: começar pequeno. Escolha um momento quotidiano e torne-o sem telemóvel. A viagem de comboio. A fila do café. Cinco minutos antes de uma reunião começar.

Em vez de puxar pelo ecrã, deixe o instante ficar “nu”. Sinta a comichão de “só ir ver”. Repare nela, mas não obedeça. Olhe à sua volta. Escolha uma coisa para observar: como alguém segura o saco, um cartaz na parede, o tom exacto do céu.

Isto não é um projecto para virar monge. É uma forma de voltar a inserir pequenos bolsos de tempo por preencher num dia que ficou plastificado por conteúdos. Esses micro-intervalos são onde a tal vida interior, ao estilo anos 70, começa a regressar devagar.

Muita gente começa com regras heróicas: nada de telemóvel depois das 20h, 30 minutos diários de meditação, domingos inteiros “desligados”. Sejamos honestos: quase ninguém mantém isso todos os dias. A ambição queima depressa.

Experimente, em vez disso, “um bolso protegido”. Cinco minutos não negociáveis, mas tão pequenos que quase parecem ridículos. A caminhada do carro até ao supermercado. O tempo de ferver a água no fervedor. A subida no elevador até ao 8.º andar.

O erro mais comum é tratar o silêncio como um truque de produtividade. Se cada momento calmo tiver de produzir ideias, insights ou uma versão “melhor” de si, mais cedo ou mais tarde vai começar a ressentir-se. Deixe que alguns intervalos sejam inúteis. Era aí que vivia a magia antiga.

Há ainda um efeito secundário relevante: quando volta a criar espaços sem estímulos, pode dar por si a querer “oferecer” esses espaços aos outros - especialmente às crianças. Não para as afastar da tecnologia, mas para normalizar a capacidade de estar aborrecido sem pânico. Um percurso curto sem ecrãs, um jantar sem vídeos, cinco minutos a olhar pela janela. Isto não é moralismo; é treino de autonomia mental.

Uma mulher que entrevistei, nascida em 1966, resumiu assim:

“Esperávamos por tudo. Programas de televisão, cartas, até fotografias. Deixava-se o rolo para revelar e só se via as imagens uma semana depois. A espera dava tempo para imaginar como iam ficar. E esse imaginar era metade da graça.”

O que ela descreve é algo que muita gente sente mas tem dificuldade em nomear: a antecipação como um lugar onde se pode ficar, e não um problema a resolver. Ao apararmos a espera, tirámos com ela uma alegria silenciosa.

  • Lembre-se de um momento pequeno da sua infância em que “não se passava nada”, mas a cabeça estava cheia.
  • Recrie uma versão mínima disso na vida adulta: uma canção ouvida até ao fim, um banho sem podcast, uma viagem de autocarro sem auriculares.
  • Repare nos primeiros dois minutos de inquietação e, depois, na camada mais subtil por baixo - a parte que finalmente consegue expirar.

Viver com mais intervalos: o que isso muda em si, hoje

Quando reintroduz pequenos bolsos de “nada”, acontecem coisas estranhas. O dia parece alongar-se - não em horas, mas em textura. As memórias agarram melhor. As conversas deixam de parecer itens numa lista e passam a ser cenas onde esteve realmente presente.

Quem pratica, de forma deliberada, estas pausas ao estilo anos 70 costuma relatar uma descoberta discretamente chocante: apercebe-se do cansaço real que trazia. O fluxo constante de estímulos estava a mascarar uma espécie de jet lag mental. Quando a distracção desaparece, a fadiga sobe primeiro… e depois começa a aliviar.

O tempo de espera, à moda antiga, funcionava como válvula de pressão. Deixava as emoções baterem e assentarem. Quando recupera isso, os problemas parecem menos cortantes, porque a mente ganha tempo para “alisar as arestas”.

Isto não implica atirar o telemóvel para uma gaveta nem fugir para uma casa isolada sem internet. Essa fantasia seduz, mas raramente é viável. A mudança real é mais modesta e, ao mesmo tempo, mais radical: aceitar que alguns momentos podem ser insuficientemente entretidos.

Num autocarro em 1975, “aborrecido” podia ser olhar para a condensação no vidro e ver formas. Em 2025, “aborrecido” pode ser dez minutos na cozinha sem ecrã, enquanto a massa coze. Não é glamoroso. É profundamente humano.

A competência escondida dos anos 60 e 70 não é nostalgia. É tolerância - e, com sorte, até apreço - pelo silêncio mental. À medida que a reaprendemos, as conversas ganham profundidade, as ideias criativas encontram espaço para aparecer e a ansiedade tem para onde ir que não seja mais um deslizar sem fim.

Não precisamos de voltar atrás. Precisamos apenas de deixar um pouco de espaço.

Ponto-chave Detalhe Benefício para o leitor
O “músculo da espera” Crescer com televisão lenta, cartas e filas treinava naturalmente a atenção e a vida interior. Ajuda a perceber porque é que as gerações mais velhas muitas vezes parecem mais calmas e focadas.
Micro-intervalos no dia Proteger pequenos momentos sem telemóvel transforma tempo morto em tempo de recuperação mental. Dá-lhe um caminho realista para se sentir menos drenado sem virar a vida do avesso.
Reenquadrar o tédio O tédio torna-se uma porta para ideias, memória e digestão emocional, não um defeito. Faz a vida quotidiana parecer mais rica, mesmo quando “não se passa nada”.

Perguntas frequentes

  • O que é exactamente a competência de vida que as pessoas tinham nos anos 60/70?
    É a capacidade de ficar com os próprios pensamentos - saber esperar, suportar o tédio e atravessar momentos de silêncio sem procurar estímulo imediato.

  • Isto não é só nostalgia por um tempo que, no fundo, não era melhor?
    Nenhuma época é um paraíso. Os anos 60 e 70 tinham problemas próprios, mas o ritmo mais lento treinava, de forma natural, paciência e quietude interior que hoje muita gente custa a encontrar.

  • Como posso praticar isto se o meu trabalho é online o dia inteiro?
    Pense em limites, não em horas. Reclame pequenos bolsos sem ecrã à volta do trabalho online: antes de uma chamada, depois de enviar um e-mail, nas pausas.

  • E se eu ficar ansioso quando ponho o telemóvel de lado?
    É comum. Comece com janelas muito curtas, reconheça o desconforto e mantenha-as previsíveis, para o cérebro aprender que este silêncio é seguro.

  • Isto muda mesmo alguma coisa ou é só uma ideia bonita?
    Pequenos intervalos consistentes remodelam a sua atenção. Ao fim de algumas semanas, muitas pessoas notam melhor foco, menos stress de fundo e uma sensação mais forte de “estar lá” na própria vida.

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