A Armada dos EUA está a ponderar criar um pacote naval de longa duração para manter uma presença contínua na área de responsabilidade do Comando Sul, num modelo de destacamento que dispensaria um porta-aviões. A experiência recente com o USS Gerald R. Ford (CVN-78) foi encarada como um excesso de meios para missões de interdição marítima e combate ao narcotráfico, além de ter retirado à Marinha norte-americana uma das suas plataformas mais valiosas de projecção de força.
A intenção de adaptar um pacote naval às necessidades específicas do Comando Sul ganhou forma após declarações do Chefe de Operações Navais, Almirante Daryl Caudle, durante um evento de diálogo sobre segurança marítima co-organizado pelo Instituto Naval dos Estados Unidos e pelo Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais.
Segundo o que foi citado pelo portal USNI News, o Almirante Caudle afirmou, em síntese: “Não preciso de um porta-aviões para a interdição marítima… Quero reservar o porta-aviões para onde ele for necessário… para projecção de poder e dissuasão em cenários que realmente exijam esse tipo de capacidade…”.
Estas palavras foram uma referência directa ao recente emprego operacional do grupo de ataque do porta-aviões USS Gerald R. Ford na área do Comando Sul - um uso que, para Washington, significou abdicar temporariamente de uma ferramenta crítica, sobretudo à medida que a situação no Médio Oriente foi evoluindo.
Importa recordar que o Ford e os seus escoltas iniciaram a navegação rumo à área de responsabilidade do Comando Europeu em junho de 2025. Porém, a meio de Outubro, o Grupo de Ataque do Porta-Aviões recebeu ordens para rumar ao Caribe, inserido nos reforços previstos por Washington para enfrentar grupos terroristas e redes de narcotráfico.
A presença do porta-aviões Ford no Caribe culminaria na operação Absolute Resolve, acção na qual seria capturado o então presidente da República Bolivariana da Venezuela, Nicolás Maduro.
Pacote naval da Armada dos EUA no Comando Sul: presença sustentada sem porta-aviões
O destacamento do grupo de ataque do porta-aviões USS Gerald R. Ford para a área do Comando Sul foi relativamente invulgar, por ter sido um emprego operacional e não um simples trânsito. Diferiu, por exemplo, do caso do USS George Washington (CVN-73) em 2024 (associado a mudança de base) e do USS Nimitz (CVN-68). No caso do Nimitz, a sua passagem por águas do Pacífico e do Atlântico Sul correspondeu a uma extensão do serviço, uma vez que a sua retirada estava prevista para este ano. O navio será retirado de serviço em Março de 2027.
A Marinha dos EUA entende que existem teatros mais voláteis que exigem a presença dos seus grupos de ataque de porta-aviões, em particular o Médio Oriente e o Indo-Pacífico. Com um número limitado de navios, a força tem de equilibrar várias variáveis para não pressionar ainda mais uma frota que já opera próxima do limite.
Um exemplo frequente é o do USS Nimitz, cuja saída foi adiada à espera da entrada em comissão do novo porta-aviões USS John F. Kennedy (CVN-79). Este último já iniciou provas de mar, com a expectativa de entrar em serviço durante o primeiro trimestre de 2027.
Outro caso ilustrativo é o do próprio USS Gerald R. Ford, cuja permanência no mar foi prolongada para além do planeado, afectando directamente o planeamento da Armada dos EUA. De acordo com o USNI News, o Ford deverá atingir 11 meses de destacamento nos próximos dias, estabelecendo um novo recorde desde a Guerra do Vietname. Apesar do marco, o cenário traz impactos negativos: o estado do navio (incluindo um incêndio significativo que o obrigou a interromper operações no Médio Oriente), a condição da sua Ala Aérea Embarcada e, sobretudo, o desgaste acumulado da tripulação.
Perante vários pontos de tensão no globo e uma frota finita, a Armada dos EUA avalia que empregar um porta-aviões nas águas do Comando Sul representa, na prática, um excesso de capacidade. A alternativa mais eficiente passa por montar um pacote naval ajustado aos requisitos do comando, com foco claro em interdição e combate ao narcotráfico.
Um pacote deste tipo pode privilegiar plataformas e meios com elevada persistência e custos de operação mais contidos - por exemplo, navios de escolta para patrulha e presença, apoio logístico adequado e integração com aeronaves de vigilância marítima, reforçando a capacidade de detecção, seguimento e abordagem. Esta abordagem permite manter actividade continuada na região sem sacrificar activos estratégicos concebidos para dissuasão e projecção de força em cenários de alta intensidade.
Em paralelo, uma presença sustentada tende a beneficiar quando combinada com mecanismos de cooperação regional: treino conjunto, partilha de informação e coordenação com guardas costeiras e marinhas parceiras. Para missões de interdição e combate ao narcotráfico, a eficácia depende tanto do dispositivo naval no mar como da articulação com enquadramentos legais, inteligência e cadeias de comando que acelerem a tomada de decisão e a actuação em tempo útil.
Imagem de capa ilustrativa. Créditos: Marinha dos EUA
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